TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia









terça-feira, 12 de maio de 2015

NO SAL DO AMANHECER



Quando a claridade da aurora rasgar as frestas da janela,  
encontraremos nossos corpos ainda presos um ao outro,  
a pele colada pelo suor, as coxas entrelaçadas,  
o peito subindo e descendo no mesmo ritmo cansado e saciado.

Não indagues sobre o tempo que se perdeu.  
Ele se desfez no calor que ainda lateja entre nós,  
no peso do teu corpo sobre o meu,  
na umidade quente que escorre devagar 
pela curva da minha cintura.

Toda a distância que nos separou  
foi esmagada debaixo dos joelhos,  
no chão do quarto que ouviu cada suspiro,  
cada tremor, cada gemido abafado contra a pele.

Sinto ainda o eco do teu embalo dentro de mim,  
a marca dos teus dedos na minha carne,  
o gosto salgado da tua boca que não se desgrudou da minha  
até o último espasmo nos deixar sem voz.

Não há passado que importe  
quando o corpo ainda pulsa com a memória do prazer,  
quando o ventre ainda treme em ondas lentas,  
quando a alma está completamente tomada  
por esse vazio doce e pesado que 
só o teu corpo consegue preencher.

Tudo o que fomos e o que deixamos de ser  
cabe neste instante molhado e quente,  
neste silêncio suado em que só existe  
o latejar surdo e irrevogável  
dos nossos corpos ainda unidos.




  Cléia Fialho


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