mordendo o tempo com a ponta da língua,
enquanto a tua carne estica o mapa do mundo
nos meus lábios famintos de ti.
O caldo do teu desejo alaga o tecido amassado da noite,
e os meus dentes, as minhas unhas,
desenham caminhos mudos na penumbra
que vigia, cúmplice, o nosso frenesi.
Trago esse sumo até à última gota,
enlouquecida de uma sede que água nenhuma apaga,
sedenta como vinhateira em dia de colheita,
colhendo-te cacho a cacho, veia a veia.
Saboreio-te centímetro a centímetro,
pulso a pulso, estalo a estalo,
roubo o delírio no relevo dos teus tremores
como quem rouba o fôlego ao próprio peito.
O teu fluido escorre e inunda a sombra do quarto,
desagua sem freio na curva dos meus braços,
onde o teu corpo desaba em brasa pura
e eu, mulher inteira, te recolho em taça viva.
Sorvo o teu extrato com a reverência do vício,
entre o susto e a ânsia de te esvaziar inteiro,
engulo cada segredo teu em goles febris,
gota a gota, gemido a gemido,
até o sol nos encontrar assim —
eu, ainda bêbada de ti,
tu, a última uva pendurada na minha boca.

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