o silêncio se rasga antes do grito,
um calafrio sobe da espinha e explode na nuca
— e ainda não me encostei em ti.
Essa vertigem é o prelúdio,
o aviso de que a carne vai se lembrar,
de que cada poro vai abrir a boca
para beber o que ainda não chegou.
A fome que carrego não tem fundo,
não se enche com migalhas nem com promessas,
ela rói os ossos, lateja nas juntas,
urra baixinho quando te vejo.
É desejo sem coleira,
bicho solto que não obedece,
que trepa pelas paredes do peito
e arranha o ar com as garras.
E o delírio — ah, o delírio —
é a febre que sobe quando te toco,
quando a tua respiração muda de ritmo
e os teus dedos se cravam nas minhas costas.
É queimar sem apagar,
é morrer e renascer no mesmo segundo,
é sentir o teu gosto na língua
mesmo depois de te ter engolido inteiro.
Vertigem, fome, delírio.
Três nomes para a mesma coisa:
tu,
dentro de mim,
até que não sobre nada
— e ainda assim, mais.

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