TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia









domingo, 16 de agosto de 2015

METÁFORAS QUE ME TOCAM


Teu olhar é brasa baixa  
que aquece sem queimar de imediato.  
Ele me percorre devagar,  
como luz atravessando cortina fina,  
e o corpo já responde  
antes mesmo do primeiro toque.

Tua voz, quando baixa,  
é tecido quente sobre a pele.  
Cada palavra desliza,  
deixa rastros de calor no pescoço,  
na curva da orelha,  
no lugar onde o ar fica mais denso.

Teu cheiro chega primeiro que as mãos.  
Mistura de pele, sabonete e noite.  
Ele se instala no fundo da garganta  
e me faz respirar mais fundo,  
como quem tenta guardar  
o que não quer perder.

Quando enfim me tocas,  
os dedos são água morna  
correndo pela pele sedenta.  
Não apertam: reconhecem.  
Mapeiam a linha da cintura,  
a curva do quadril,  
o trecho sensível atrás do joelho  
que faz o corpo inteiro escutar.

Tua boca é fruto maduro.  
O gosto se espalha lento,  
mistura-se ao meu,  
e o beijo vira linguagem  
que não precisa de tradução.  
É úmido, quente,  
cheio de promessas  
que o corpo já começa a pagar.

O silêncio entre um gesto e outro  
também é sensorial.  
Ele vibra.  
Ele pesa.  
Ele me deixa à espera  
do próximo contato  
como a pele à espera da chuva  
depois de dias de sol.

E quando tudo se junta —  
olho, voz, cheiro, toque, gosto —  
eu me dissolvo na metáfora maior:  
a de ser inteiramente sentida,  
e de sentir-te  
sem precisar de mais nenhuma palavra.




  Cléia Fialho


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