TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia
TRADUTOR

sábado, 24 de outubro de 2015

A VELOCIDADE DO TOQUE


Chegas sem pressa, como a noite que desce
sobre a colina, quando o calor já não queima,
apenas inflama a pele e a penumbra.

O vento traz o cheiro do desejo na flor‑do‑jasmim
que abre só quando a carne se torna suave,
assim como tu te abres inteira para mim.

Não há urgência. Há o som da respiração
que se ajusta, arfante, ao mesmo ritmo.
As mãos pairam no ar, antes de tocarem,
como quem teme que o próprio fogo se quebre,
como quem sabe que o toque não é só pele:
é o espasmo latente guardado no peito.

Passas os dedos devagar pelo meu pulso,
sentindo a pulsação que se acelera quieta.
Não procuras marcas, só procuras saber
onde a minha luxúria se esconde, onde o meu cansaço
se dissolve ao sentir‑se despido e acolhido.

Eu fecho os olhos e deixo‑me levar
pelo calor que vai se espalhando devagar,
como saliva quente que percorre um caminho antigo.

A luz da janela é baixa, dourada e macia,
desenha sombras úmidas nos ombros nus.
Cada toque é uma pergunta lasciva,
cada resposta é um gemido que escapa devagar.

Não há palavras gritadas; há frases baixas,
sussurradas perto do ouvido, com calor:
“estou aqui”, “estou contigo”, “deixa‑te sentir”.

Caminhamos com as palmas abertas,
pela curva do quadril, pelo comprimento do braço,
pela linha ardente da coluna que se arqueia
quando o prazer não é explosão, mas fluxo:
algo que cresce devagar, dentro do ventre,
que une o corpo ao coração, sem separar.

O tempo parece parar: não há relógios,
não há ruídos externos, só o nosso espaço,
feito de respirações, de calor e de confiança.

Quando nos aproximamos mais,
não é só dois corpos que se encontram:
são dois mundos que se abrem um ao outro,
que se permitem ser frágeis, sem medo de julgamento.

Os lábios se tocam primeiro levemente,
como se provassem o sabor do momento,
depois se demoram, com doçura,
enquanto as mãos continuam a desenhar
contornos conhecidos e sempre novos,
como um mapa que se lê de olhos fechados.

O ar fica mais quente ao nosso redor.
Cada pequeno arrepio é uma confissão:
“eu sinto‑te”, “eu estou presente”, “eu quero este instante”.

Não há pressa para chegar a nenhum fim;
a beleza está no caminho que fazemos juntos:
no modo como inclinas a cabeça,
no modo como eu me aproximo para ouvir o teu respirar,
na calma que envolve tudo quando nos sabemos
seguros, despidos de máscaras, apenas nós.

A noite avança lá fora, silenciosa.
Dentro do nosso espaço, a suavidade permanece:
dois corpos que repousam juntos,
ainda com o calor do toque nos poros,
com a sensação de ter sido visto, aceite, amado.

A sensualidade não está só no movimento:
está na atenção, no respeito, na doçura
de saber partilhar um instante íntimo,
em que o maior prazer é simplesmente
estar ali, um ao lado do outro,
com toda a ternura que dois seres podem dar.




  Cléia Fialho


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