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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

OS POETAS BRASILEIROS — GUARDIÕES DA ALMA DE UM POVO




Há países que são lembrados por seus castelos. Outros, por seus exércitos, impérios ou monumentos de pedra. O Brasil, porém, possui um patrimônio invisível que nenhuma guerra conseguiu destruir, nenhuma tempestade conseguiu apagar e nenhum tempo conseguiu envelhecer: a sua poesia.

Os poetas brasileiros nunca escreveram apenas versos. Escreveram o próprio país.
Cada poema nasceu como uma janela aberta para uma paisagem diferente. Às vezes, a paisagem era uma rua silenciosa de uma cidade do interior. Outras vezes, era a imensidão do sertão, o verde da floresta, o azul do mar ou a saudade escondida no coração de alguém.

Talvez seja por isso que a poesia brasileira tenha tantas vozes. Ela não pertence a uma única terra, nem a um único sotaque. Ela nasce no Amazonas e continua viva no Rio Grande do Sul. Caminha pelas ladeiras históricas de Minas Gerais, atravessa o cerrado, repousa sobre os coqueiros do Nordeste e encontra abrigo nas grandes avenidas das metrópoles.

Cada poeta carrega consigo um Brasil particular.
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Há os que escrevem sobre o amor como quem acende uma vela na escuridão. Há os que denunciam as injustiças com palavras que cortam mais do que espadas. Existem aqueles que transformam uma simples flor em universo e outros que encontram poesia no trabalhador anônimo, na criança brincando descalça, no velho banco da praça ou na chuva batendo lentamente sobre um telhado de zinco.

O poeta possui um estranho privilégio: enxergar aquilo que quase ninguém percebe.
Enquanto a maioria atravessa os dias preocupada com relógios, contas e compromissos, ele observa uma folha caindo. Escuta o canto de um pássaro esquecido. Descobre beleza numa janela antiga, numa fotografia amarelada ou numa lembrança que parecia perdida para sempre.

A poesia transforma o comum em extraordinário.

O Brasil teve a felicidade de reunir gerações inteiras de escritores que ensinaram diferentes maneiras de olhar o mundo. Uns fizeram da simplicidade um templo. Outros mergulharam na filosofia, na crítica social, na musicalidade da língua ou nas inquietações da alma humana. Nenhum repetiu exatamente o outro. Cada um deixou uma impressão única sobre o papel.

E é justamente essa diversidade que torna a literatura brasileira tão rica.
Nossos poetas compreenderam que o idioma português podia ser muito mais do que um instrumento de comunicação. Nas mãos deles, as palavras ganharam perfume, textura, cor, temperatura e silêncio. Sim, silêncio também, porque existem versos que dizem mais pelo espaço entre uma frase e outra do que pelas palavras propriamente escritas.

O poeta conhece o valor das pausas.

Ele sabe que há lágrimas que não precisam ser nomeadas. Há saudades impossíveis de explicar. Há amores que sobrevivem apenas dentro da memória. Há despedidas que continuam acontecendo durante muitos anos.
Escrever poesia talvez seja isso: oferecer linguagem ao que parecia impossível dizer.
Vivemos numa época em que tudo acontece depressa. As mensagens chegam em segundos, as notícias envelhecem em minutos e as pessoas parecem sempre correr para algum lugar. Nesse cenário de velocidade, a poesia continua caminhando devagar.

Ela não disputa espaço com o ruído.
Prefere esperar.

Sabe que encontrará abrigo justamente naquele leitor que, cansado do excesso de informação, procura um pouco de verdade.
E a verdade da poesia nunca esteve na perfeição das rimas ou na elegância da métrica. Ela vive na sinceridade do sentimento. Um único verso verdadeiro pode permanecer na memória durante décadas. Pode consolar uma perda, fortalecer uma esperança ou simplesmente fazer companhia numa noite silenciosa.
É por isso que os poetas nunca desaparecem.

Mesmo quando seus livros envelhecem nas estantes, suas palavras continuam encontrando novos leitores. Um adolescente descobre um poema escrito há cem anos e sente que ele foi feito para sua própria vida. Uma senhora reencontra versos da juventude e revive emoções que julgava esquecidas. Um homem cansado encontra numa página o conforto que nenhuma conversa conseguiu oferecer.

A poesia atravessa gerações porque fala diretamente àquilo que permanece humano.
Os poetas brasileiros ajudaram a construir não apenas a literatura nacional, mas também a memória afetiva de milhões de pessoas. Estão presentes nas escolas, nas canções, nos teatros, nas cartas de amor, nas despedidas, nas celebrações e até nos momentos de solidão, quando um verso retorna inesperadamente à lembrança como quem bate delicadamente à porta da alma.

Talvez nunca recebam o reconhecimento que merecem. Talvez muitos permaneçam conhecidos apenas em pequenas cidades, grupos literários ou círculos de leitores apaixonados.
Ainda assim, continuam realizando um trabalho silencioso e indispensável.
Enquanto houver um poeta escrevendo à luz de uma madrugada, haverá alguém preservando a delicadeza do mundo.

Enquanto houver um poema sendo lido, a esperança continuará respirando.
Porque os poetas brasileiros não escrevem apenas livros.
Escrevem memórias.
Escrevem afetos.
Escrevem resistência.
Escrevem o tempo.
E, sobretudo, escrevem aquilo que jamais deixará de existir: a eterna necessidade humana de transformar a vida em beleza.






Cléia Fialho

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