CADEIRA E OLHAR
Tu entras com a corda na mão
e eu já sei que não vou sair daqui
— não até tu decidires.
e eu sento—sem hesitar, sem perguntar.
Tu amarras os meus pulsos atrás das costas
e a corda roça a minha pele como um beijo roubado.
Tu amarras os meus tornozelos nas pernas da cadeira
e eu fico aberta, exposta, tua
— os meus joelhos a tremerem
o meu centro a arder
os meus olhos presos nos teus.
Tu afastas-te e olhas
— devagar, de cima a baixo.
E eu sinto cada centímetro do teu olhar
como se fossem dedos a percorrer-me.
— "olha", tu dizes, "olha o que eu faço contigo"
Tu aproximas-te e tocas-me onde mais arde
— com a ponta dos dedos, com a língua, com o teu hálito.
E eu não posso tocar-te de volta
não posso fechar as pernas
não posso fugir.
Só posso olhar
— e eu olho
vejo o teu sorriso de dona
vejo os teus olhos brilharem
vejo o teu corpo mover-se contra o meu
enquanto eu estou presa, nua, tua.
Tu entras em mim devagar
— e eu arco as costas contra a cadeira.
As cordas apertam os meus pulsos
e eu gemo o teu nome
não para pedir para soltar
mas para pedir que continues.
— "assim", tu dizes, "assim eu gosto de te ver"
— presa, aberta, a olhar
E quando o gozo vem
— e eu não posso segurar-te,
não posso fechar as pernas,
não posso desviar o olhar —
eu grito contra a corda
e tu sorris
porque sabes
que esta cadeira
vai ser o meu lugar favorito
sempre que tu quiseres mostrar
quem é que manda aqui.
❦
Cléia Fialho

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