DEVAGAR OUTRA VEZ
Tu ainda estás quente do primeiro gozo
e eu não te dou tempo para esfriar.
"mas agora devagar"
"quero ver cada segundo"
Tu olhas para mim, incerta
— "estou sensível, sabes?"
Eu beijo a tua testa e sussurro
— "sei, é por isso que quero"
"quero ver-te tremer mais devagar"
"quero ouvir-te gemer sem pressa"
"quero sentir cada onda tua como se fosse a primeira".
Tu começas
— mais lento do que antes
os teus dedos deslizam sem pressa
e eu vejo o teu corpo adaptar-se ao ritmo.
Tu fechas os olhos e eu vejo o teu rosto
— cada microexpressão, cada suspiro.
Eu falo baixinho
— "assim, minha fera"
"vai devagar, sente cada toque".
Tu segues o meu ritmo
— lento, fundo, intenso.
E eu vejo o gozo construir-se
como uma onda que demora a chegar
mas que quando chega, é maior.
Tu começas a tremer
— e eu continuo a falar
— "não pares"
"quero ver-te chegar outra vez"
"devagar, como eu pedi".
E quando tu vens
— mais devagar, mais fundo, mais intenso —
eu vejo tudo
cada contração, cada tremor, cada som
mais nítido do que antes
porque a pressa já passou
e o que fica
é o gozo lento
— o meu favorito
— o que mais me arrepia
— o que mais te entrega.
❦
Cléia Fialho

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