Cada noite um deserto sem tua pele,
cada sonho um labirinto onde tua boca me perseguia,
círculos oblíquos, vertigens que me queimavam,
teu peso imaginado esmagando-me,
como se o corpo fosse apenas ausência.
Agora, não há mais distância.
Sou lenta no início,
saboreio o atraso como vinho proibido,
cada gesto é prelúdio,
cada toque é promessa.
Mas logo me torno tempestade,
rápida, funda, sem freio,
um animal que não conhece limites,
um corpo que não pede licença.
Meus seios se erguem como oferenda,
são altares de fogo,
são frutos que clamam por tua boca,
puxa-os, morde-os,
faz deles território de guerra,
aperta-me até que o prazer se torne ferida,
até que o gemido se torne grito,
até que o mundo se dissolva em suor.
Sou selvagem em tua pele,
sou vertigem em tua língua,
sou abismo que se abre e nunca se fecha.
Cada respiração é faca,
cada beijo é incêndio,
cada movimento é terremoto.
E quando o dia nascer,
seremos ainda feras enlaçadas,
nossos corpos tatuados por cicatrizes de prazer,
nossos lençóis rasgados como testemunhas,
nossas almas marcadas por este rito visceral.
Porque não somos apenas amantes,
somos tempestade,
somos selvageria,
somos poesia crua, intensa,
somos fogo que não se apaga,
somos desejo que não se cala,
somos arrebatamento que devora,
somos o abismo que nos engole,
sem retorno.
❦
Cléia Fialho
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