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quarta-feira, 2 de abril de 2014

ALGEMAS E PELE ARREPIADA




Tu vestes branco — renda, linho, quase nada
e eu vejo o vermelho pulsar em mim
igual ferida aberta de desejo
que só tu podes fechar com a boca.

Teu cheiro chega antes do teu corpo
— pele arrepiada que ainda nem toquei
e eu já tremo como se tu já me tivesses
amarrado, nu, entregue.

Tu ris baixo e seguras as algemas
— não são de metal, são de pele
são tuas mãos que me prometem
que eu não vou fugir
que eu não vou pedir calma.

Tu me viras de costas
e eu sinto o frio do aço no meu pulso
mas o calor do teu peito na minha nuca
e o contraste me arrepia inteiro.

Tu me algemas e eu sou teu
— não há palavra que desfaça esse laço
só há o som do metal batendo no metal
enquanto tu desces devagar
pela minha espinha que já está molhada.

O branco da tua roupa brilha na penumbra
e o vermelho do meu desejo arde no teu olhar
Tu me puxas pelo elo da algema
e eu vou — como quem sempre soube
que seria assim: preso, nu, teu.

E quando tu finalmente me tocas
onde mais doi e mais arde
eu sinto teu cheiro subir igual fumaça
— pele arrepiada, pele molhada, pele tua
e eu fecho os olhos
não pra não ver
mas pra sentir mais forte
cada elo, cada mordida, cada gemido que tu roubas de mim.


EU, TU E AS ALGEMAS

Eu visto o branco que tu escolheste
— renda fina, quase transparente, molhada de mim
Tu deitas na cama e eu vejo o vermelho pulsar no teu olhar
quando eu subo devagar por cima de ti.

Tu cheiras a pele arrepiada
— e eu sei que ainda nem te toquei
mas o ar já treme entre nós
como se o quarto inteiro fosse minha mão aberta.

Eu seguro as algemas
— não as ponho em ti, ponho em mim
porque quero que sejas tu a me prender
quero sentir o aço frio no meu pulso
enquanto tu queimas por cima de mim.

Tu me viras de bruços
e eu arqueio as costas como quem oferece o altar
Sinto teu hálito na minha nuca
e o metal range quando tu me puxas
e eu gemo — não de dor
mas de entrega.

Cada elo que tu apertas
é um pedaço de mim que te pertence
e quando tu desces a mão entre as minhas pernas
eu já estou molhada — não de água
mas de ti, de desejo, de promessa.

O branco da minha renda já não importa
— tu a rasgas com os dentes
e eu vejo o vermelho dos teus olhos brilhar
quando descobres o que há por baixo.

Eu não peço pra soltar
peço que apertes mais
peço que me puxes pelos cabelos
peço que me digas baixinho:
"minha".

E quando tu finalmente entras em mim
— com os dedos, com a boca, com tudo —
eu arranho o lençol, mordo o travesseiro, chamo o teu nome
e as algemas batem no metal da cabeceira
igual sinos de um gozo que não acaba mais.






Cléia Fialho

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