OLHAR QUE DEVORA
Tu deitas-te na cama e eu fico de pé
— não te toco, não me mexo
só olho.
vejo os teus dedos encontrarem o centro
e eu não desvio o olhar nem um segundo.
Tu fechas os olhos e começas
— devagar, círculos, pressão
E eu vejo cada contração tua
cada arrepio, cada suspiro.
A minha boca está seca
mas os meus olhos estão molhados de ti
Eu vejo o teu peito subir e descer
vejo as tuas pernas abrirem-se mais
vejo o teu ritmo acelerar.
Tu gostas que eu olhe — eu sei
porque quando abres os olhos
encontras os meus
e não te desvias
continuas
para mim.
Eu vejo o gozo aproximar-se
— no teu rosto, na tua respiração, no teu corpo
E quando ele chega
eu vejo tudo
cada onda, cada tremor, cada gemido que tu não seguras.
Eu não te toco
mas como-te com os olhos
— cada pedaço de ti
cada som que tu fazes
cada gota que escorre.
E quando acabas, tu olhas para mim
e eu estou ali
— duro, imóvel, devorando-te com o olhar
porque ver-te gozar
é o meu gozo também.
❦
Cléia Fialho

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