MÃOS QUE VEEM POR MIM
Tu vendas os meus olhos
— um pano macio, escuro, quente
E de repente, o mundo desaparece
e as tuas mãos.
A primeira mão encontra a minha nuca
e eu inclino a cabeça
— confiança ou entrega?
As duas.
A segunda mão desce pela minha barriga
— devagar, como quem lê braille na minha pele
E eu não vejo
mas sinto cada milímetro
cada curva do teu dedo
cada pausa tua.
Tu rodas-me devagar
e eu deixo-me guiar
— não sei para onde vou
mas sei que vou contigo.
Tu encostas-me à parede
e a tua mão sobe pelas minhas coxas
— e eu tremo porque não vejo onde vais tocar
Sinto o teu hálito no meu pescoço
e as tuas mãos a abrirem-me
devagar, fundo, certo.
Tu entras em mim com os dedos
e eu fecho os olhos
— mesmo já vendada
porque o que sinto é maior do que o que vejo.
Tu guias-me para a cama
e eu deito-me de costas
— sem ver, sem saber, sem medo
Tu montas-me devagar
e eu sinto o teu peso
o teu calor
o teu ritmo
tudo mais intenso
porque os olhos não roubam a atenção.
Quando tu comes — e eu não vejo
quando tu gemia — e eu só ouço
quando o gozo chega — e eu só sinto
eu percebo
que a cegueira não é perda
é ganho
porque sem ver
eu sinto-te inteiro
como nunca antes.
❦
Cléia Fialho

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