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quarta-feira, 21 de maio de 2014

ÚLTIMO ESPASMO




No chão frio do corredor, meu corpo se curva ao teu domínio.
Não há pressa, apenas a fome acumulada de dias distantes.
Devoro o teu segredo milímetro por milímetro,
arrancando da tua garganta um som rouco, abafado,
enquanto teus músculos colapsam e a tua pele queima.

Desfaço a tua armadura de pano, rasgando o que nos separa.
Minha boca é um incêndio que desce pela tua jugular,
marcando o território da tua lucidez.

Prendo minhas mãos na firmeza do teu ventre,
enquanto suspendo o tecido que te esconde,
tateando a tua humidade selvagem,
o teu abismo inundado de desejo.

O espaço aperta e o ar se torna escasso entre nós,
enquanto minhas unhas cavam a linha da tua coluna,
desenhando um rastro de urgência na carne viva.

Tuas mãos me puxam pelos cabelos, ditando o ritmo,
um comando mudo e brutal que me faz submergir
ainda mais fundo na tua tempestade interna.

Esquecemos o mundo do outro lado da porta,
reduzidos ao atrito puro, ao calor que verte das frestas,
ao peso dos nossos peitos que colidem sem trégua.
É uma dança canibal, um pacto de sangue e saliva,
onde a delicadeza cede lugar ao instinto mais cru.

E quando a vertigem finalmente nos consome,
não sobram nomes, nem regras, nem ontem.
Apenas dois corpos naufragados no próprio suor,
presos no eco do último espasmo que nos rasgou por dentro.






Cléia Fialho

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