Tu deitas na mesa da cozinha
e eu finjo que vou dissecar teu corpo com a ponta dos dedos.
Teus olhos fechados
— confiança ou rendição?
— arcos perfeitos, dedos que se contraem quando eu toco.
Tu ris baixo e eu sigo
subindo, subindo, sempre devagar.
Teu joelho treme quando eu mordo tua coxa
e eu anoto mentalmente: "ponto sensível"
mas não anoto nada
— só guardo teu gemido na memória.
Tuas mãos estão atadas — não com corda
mas com a promessa de que não vais te mexer
e tu obedeces como quem quer ser premiada.
Quando chego ao teu ventre, paro
Tu abres um olho e perguntas: "vai ficar aí?".
Eu não respondo
— desço minha língua como quem faz uma incisão
e tu te arrepias inteira.
No final, não há bisturi, não há ciência.
Só o conhecimento profundo
que teu corpo já me entregou antes
e que eu guardo como tese.
— defendida com suor e saliva
na mesa de fórmica branca
onde ninguém jamais comeu jantar tão perfeito.
❦
Cléia Fialho

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