Eu abro a porta e tu estás ali
— saia branca, olhar de felina, sorriso de faca
Eu engulo seco, tu não dizes nada
entras como quem já sabe onde vai sentar.
e eu nem finjo que resisto
Tu apertas a saia contra a minha barriga
e eu sinto o teu calor antes dos teus dedos.
— "fica quieto", tu dizes
e eu fico — ereto, mudo, teu.
Tu desabotoas a saia devagar
— renda, linho, quase nada
e eu vejo a pele que eu sonhei
brilhando na luz que tu mesma acendeste.
Tu passas os dedos no meu peito
e eu arqueio como se tivesses me tocado com língua
Tu ris baixo — e esse riso é minha algema.
— "deita", tu dizes
e eu deito — aberto, nu, pronto.
Tu sobes por cima de mim
e a saia branca agora é uma cortina
que esconde o que eu mais quero ver
mas tu abres devagar
— como quem abre um presente que é dela
porque eu sou.
Tu seguras meus pulsos contra a cama
e eu não preciso de algemas
— teus dedos são o aço
teu olhar é a chave
e eu não quero fugir.
Tu desces a boca no meu pescoço
e eu sinto o teu hálito morder minha pele
Tu és fera de saia branca
e eu sou tua presa de pele quente
que lateja e espera
cada mordida, cada arranhão
cada palavra que tu sopras no meu ouvido:
— "agora sou eu que te como"
E tu comes
— com a boca, com os dedos, com o quadril
eu não sei se estou preso ou solto
só sei que estou teu
e que essa saia branca
nunca mais vai ser a mesma
porque tu a manchaste com o meu desejo
e com o teu gozo
que escorre pelos meus dedos
enquanto tu te mexes em mim
e eu te chamo
— fera
— fêmea
— minha.
❦
Cléia Fialho

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