Quando a aurora invade o silêncio pesado,
nossos corpos ainda entrelaçados, presos,
as pernas trançam histórias que a pele conta,
marcas profundas, cicatrizes que são versos,
nos lençóis revoltos, no calor das feridas.
Tu estás aqui — feito desejo em carne viva,
suor que escorre como rio ardente entre nós,
o meu corpo conhece antes mesmo do meu ser,
abre-se em convite, em fogo, em fome antiga,
minhas coxas se escancaram como portas,
e eu te monto, sem pressa, sem nome, sem tempo.
Sento-me pesado, úmido, cheio de sede,
carrego em mim a calma voraz da paixão,
cada movimento é tempestade e silêncio,
um ritmo brutal que explode e se demora,
teu corpo é terra ardente que eu cultivo,
e em cada toque, um abismo que me chama.
O suor mistura-se à pele, à saliva quente,
a respiração se perde na dança feroz,
minhas mãos são âncoras, tuas mãos tormentas,
e juntos navegamos na corrente selvagem,
sem mapa, sem destino, só o agora intenso,
onde o desejo se faz verbo, se faz carne, se faz tudo.
E quando o horizonte engolir nossa loucura,
ficará o sabor do sal, do fogo e do êxtase,
os corpos cansados, mas ainda famintos,
a promessa eterna de que esse momento,
esse encontro bruto, visceral e sagrado,
vai arder em nós muito depois do silêncio.
❦
Cléia Fialho

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