Eu uivo à lua
Ligação primitiva
Alma cognitiva.
Carrego nos olhos
o brilho antigo das fogueiras,
memórias que não vivi
mas reconheço
na pulsação da noite.
Há um animal sagrado
correndo dentro do peito,
farejando silêncios,
despindo medos,
rasgando o escuro
com dentes de desejo e liberdade.
Sou feita de instinto
e pensamento,
de carne febril
e sonhos profundos.
Enquanto a cidade dorme
e os relógios se rendem ao tempo,
minha essência desperta
selvagem e lúcida,
como quem conversa
com os mistérios do universo.
Então uivo outra vez,
não por tristeza,
mas para lembrar às estrelas
que ainda existo inteira,
metade mulher,
metade noite infinita.
❦
Cléia Fialho

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