Manhã Seguinte — O Corpo Que Ainda Se Lembra
Acordei antes de ti.
O sol entrou pela persiana em faixas douradas e caiu-te em cima do peito nu, e eu fiquei um instante só a olhar-te — o cabelo desfeito na almofada, a boca entreaberta, aquela linha do teu queixo que ainda ontem à noite eu mordi tantas vezes. Estás lindo assim. Estás lindo sem saberes que eu te olho. Estás lindo com o meu perfume ainda misturado ao teu suor, com a marca dos meus dentes ainda visível no teu ombro esquerdo.
O meu corpo dói.
Dói nos sítios certos. Dói nas coxas por dentro, onde as tuas mãos apertaram. Dói no ombro onde os teus dentes marcaram. Dói nos lábios inchados de tanto seres beijados. Dói entre as pernas — essa dor doce, obscena, que é lembrança da tua fome de ontem.
Ergo o lençol devagar, sem fazer barulho. Olho para o meu corpo. Estou marcada por ti. Uma nódoa arroxeada no interior da coxa esquerda. Uma na anca. Uma pequena no seio direito, mesmo à beira do mamilo. Sorrio sozinha no escuro. Nenhuma dessas marcas se apagará antes de quarta-feira, e eu vou passar o resto da semana a olhar-me ao espelho e a lembrar-me de como as ganhei.
Levanto-me devagar. As pernas tremem-me um bocadinho. Rio-me disso. Sinto-me como se tivesse corrido uma maratona — ou melhor, como se tivesse sido corrida por ti a noite inteira.
Vou-me lavar. Fico debaixo do chuveiro quente e a água escorre-me por sítios onde a tua boca esteve há poucas horas. Fecho os olhos. E o meu corpo lembra-se. Lembra-se de tudo. Do teu peso, do teu ritmo, das coisas que sussurraste, do momento em que perdi a cabeça e gritei o teu nome tão alto que os vizinhos do lado devem ter ouvido — e amanhã não vou saber olhá-los nos olhos, e ao mesmo tempo não me arrependo, porque valeu cada gemido.
A água encontra-me entre as pernas e eu solto um pequeno gemido — sensibilidade demais, ainda inchada de ti. Toco-me devagar com a esponja e sinto o eco do que fizeste ontem. Está tudo dolorido. Está tudo perfeito.
Saio. Enrolo-me numa toalha. Passo o dedo pela nuca e sinto ali outra marca — pequena, escondida sob o cabelo — que só nós sabemos que existe.
Passo pela cozinha. Ponho a cafeteira ao lume. Aproveito para me olhar ao espelho da entrada e o que vejo faz-me corar: uma mulher com o cabelo molhado, a boca inchada, os olhos ainda meio idos, uma nódoa violeta a espreitar por baixo da toalha. Não sou eu. Sou a mulher que tu fizeste ontem à noite.
Gosto dela.
Volto ao quarto com duas chávenas. Ainda estás a dormir, mas viraste-te durante a minha ausência, e agora estás de barriga para cima, com um braço esticado no meu lado da cama à minha procura. Isso enterneceu-me todo o corpo.
Pouso as chávenas na mesa-de-cabeceira. Deixo cair a toalha. Meto-me debaixo do lençol nua, encostada a ti — e o teu corpo, quente, distraído, ainda a sonhar, vira-se para mim no meio do sono e a tua mão pousa-me na coxa como se ainda continuasse. Como se nunca tivesses parado.
Beijo-te o pescoço devagar.
Muito devagar.
O suficiente para te confundir com o sonho.
Muda-te sobre mim, meu amor. Ainda meio a dormir. Não tenhas pressa. Deixa-me sentir-te outra vez enquanto o café ainda não está feito, enquanto o mundo ainda não começou, enquanto ainda somos só isto: dois corpos que se lembram um do outro numa cama desfeita, com marcas roxas, com cheiro a nós.
Passo a mão pelo teu peito. Desço-a lentamente pelo teu ventre, por baixo do lençol, até te encontrar. Estás pronto para mim — mesmo a dormir, o teu corpo lembra-se do meu. Sorris no travesseiro, ainda de olhos fechados.
— Bom dia — sussurras, com voz rouca.
— Ainda não — respondo. — A noite ainda não acabou.
Subo para cima de ti. Baixo-me devagar. E gememos ao mesmo tempo — o gemido antigo dos que continuam algo que nunca chegou realmente a interromper-se.
Não me lavo mais.
Quero passar o dia inteiro a cheirar a ti.
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