Nas paredes ecoam memórias sonhadas
como perfumes que pairam ao amanhecer —
mas não é flor que exalo agora,
é o rastro denso do teu pescoço
aindo impregnado nos lençóis,
o odor de nós dois
misturado ao suor da madrugada.
Teu sorriso é poema em linhas traçadas,
e eu leio cada curva com a língua,
desvendando versos não escritos
no mapa ascendente do teu peito
até o abismo que pulsa entre as tuas coxas,
onde a língua mergulha
e a respiração falha.
O meu coração pulsa, procura entender —
mas entender é coisa da mente,
e o corpo já sabe:
o que pulsa aqui além da vida,
é vontade de ser preenchida,
de ser rasgada em suaves camadas,
de sentir tua língua fazer liturgia
onde ninguém mais tocou.
As paredes não esquecem.
Elas guardam o som
do teu nome arrancado da garganta,
do embate da carne,
do gemido que racha o ar
como vidro sob a língua,
o estalo da pele contra pele,
o umedecido da chegada.
Amanhecer?
Deixa que o sol espere.
Aqui dentro só existe noite,
e o perfume que nos invade
é de pele contra pele,
de dedo que insiste,
desliza — penetra,
de boca que não pede,
que toma — que devora.
Memórias sonhadas?
Não, amor.
Isto é corpo acordado,
ardendo em cada esquina,
molhado — aberto,
implorando mais,
e mais — e mais.
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