Afoga-te no sal que arde nos meus olhos,
mergulha na espuma que escorre dos meus lábios,
incendeia-te na fornalha úmida da minha boca,
enrola-te no véu rasgado da minha pele,
perde-te no abismo líquido da minha alma.
Vem, que o meu olhar é oceano sem fundo,
vem, que o meu beijo é onda que desaba,
vem, que o meu hálito é lava que derrete,
vem, que o meu colo é tempestade que acolhe,
vem, que o meu ser é espelho onde tu ardes.
Despe-te de tudo, até da sombra,
entra nu no fluxo que transborda,
deixa que a maré te levante, te vire, te abra,
te engula, te cuspa, te chame de novo,
até que não saibas onde acaba o teu peito
e começa o meu abismo —
porque eu sou o teu afogamento
e o teu único ar.
