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domingo, 5 de outubro de 2014

DE BRUÇOS AINDA A TREMER

 


O corpo ainda não lhe obedecia. Cada músculo vibrava numa frequência própria, descontrolada, como se o clímax tivesse desfeito todas as ligações entre a vontade e a carne. Estava de bruços, a cara meio afundada na almofada, e ouvia a própria respiração — um arquejo rouco, arrastado, que lhe saía da garganta sem pedir licença.

O gozo dele escorria.

Sentia-o quente, espesso, a deslizar pela fenda da vagina ainda inchada, a contornar a pele sensível da parte interna das coxas. O líquido descia devagar, denso, a marcar-lhe a carne com um fio que lhe chegava quase à dobra do joelho. Uma gota mais pesada desprendeu-se e pingou no lençol já molhado, e o som mínimo daquele contacto com o tecido fez-lhe contrair as costas num espasmo involuntário.

Tentou mexer as pernas. Os músculos responderam com um tremor — só isso. A fraqueza era absoluta, uma rendição que lhe pesava nos ossos e lhe mantinha as coxas abertas, imóveis, a deixar que o fluido continuasse o seu caminho lento pela pele abaixo. Outra gota pingou.

As mãos dele pousaram na cama. Uma de cada lado das costelas dela. O colchão afundou-se sob o peso, e ela percebeu, sem precisar de olhar, que estava bloqueada — entre os braços dele, entre o lençol e aquele corpo que ainda não saíra de dentro dela.

O peso dele desabou.

Não foi um movimento gradual, não foi um pedido de licença — foi uma rendição total da gravidade, o peito largo a colar-se às omoplatas dela, a barriga dura a encaixar-se na curva das costas, os ossos da bacia a pressionarem-lhe as nádegas. 

O colchão afundou mais dois centímetros. Ela sentiu os seios esmagados contra o lençol molhado, os mamilos duros a roçarem o tecido áspero, e o ar que lhe restava nos pulmões saiu-lhe pela boca num sopro curto, quente, que embaciou a almofada.

Ele não disse nada. Só respirou.

O peito dele subia e descia contra as costas dela, e cada inspiração empurrava-a mais para baixo, mais para dentro do colchão, como se ele quisesse fundi-la com a cama. Ela tentou ajustar a anca, ganhar um milímetro de espaço, mas o corpo dele seguiu o movimento e anulou-o — os quadris dele colados aos dela, a pélvis a encaixar-se na carne das nádegas, e o pénis ainda enterrado.

Ainda dentro.

Não estava completamente duro, mas também não estava mole — estava inchado, quente, uma presença espessa que pulsava contra as paredes da vagina ainda a latejar. Ela sentia cada batida do coração dele através daquela carne enterrada fundo, cada pulsação a empurrar o sémen mais para dentro, a esticar-lhe a entrada sensível. O fluido que já escorria pelas coxas acelerou — a pressão do pénis a fazer de êmbolo, a expulsar o gozo em fios mais grossos que lhe desciam pela parte interna das coxas e se juntavam às poças já frias no lençol.

O escorrer era constante agora. Quente na origem, a arrefecer à medida que descia.

Ele mexeu a cabeça. O nariz roçou-lhe a nuca, e ela sentiu o hálito quente a espalhar-se pela pele molhada de suor. Os lábios dele estavam frouxos — entreabertos, moles, sem tensão nenhuma — quando tocaram na curva do pescoço. Não foi um beijo. Foi um encosto húmido, uma boca cansada que se deixou pousar sobre a carne como quem pousa a cabeça na almofada.

A língua saiu. Plana, larga, quente. Encostou-se à base do pescoço e subiu. Lambeu em linha reta, devagar, a recolher o sal da pele, a arrastar o suor desde a cova entre os ombros até à linha do cabelo atrás da orelha. O som foi molhado — um raspar de língua em pele suada, uma lambida lenta que deixou um rasto de saliva a brilhar na penumbra do quarto.

Ela gemeu.

O som saiu-lhe abafado contra a almofada, um gemido rouco que não planeou, que não controlou, que lhe subiu pela garganta quando a língua dele passou sobre a veia que pulsava no pescoço. O corpo estremeceu — um espasmo que lhe percorreu a espinha desde a nuca até ao cóccix, que lhe fez contrair as paredes vaginais à volta do pénis dele.

Ele sentiu. Respondeu com outra pulsação.

Os lábios frouxos dele desceram do pescoço para o ombro. A boca abriu-se mais, mole, e sugou. Não foi uma chupada forte — foi uma sucção lenta, preguiçosa, a pele do ombro dela a ser puxada para dentro da boca dele, a língua a pressionar a carne aprisionada. Deixou a pele ir com um estalo húmido e voltou a sugar, mais abaixo, a deixar uma marca quente e molhada que o ar do quarto arrefeceu em segundos.

O peso dele não aliviava. O peito colado às costas, a barriga contra a curva da coluna, o pénis pulsante enterrado na vagina ainda a escorrer. Ela estava presa — entre o colchão e aquele corpo, entre a exaustão e a hipersensibilidade, entre o gemido que já soltara e o próximo que se formava na garganta.

Ele lambeu outra vez. Da base do pescoço até atrás da orelha, a língua a recolher mais suor, mais sal, mais dela. O escorrer entre as coxas não parava — cada pulsação do pénis empurrava mais fluido para fora, e ela sentia-o a descer, quente e espesso, a marcar-lhe a pele com um rasto que lhe chegava aos joelhos.

A boca frouxa dele fechou-se contra a pele do pescoço dela, a sugar em silêncio, sem intenção de sair.

O tremor foi diminuindo, devagar, até se tornar apenas uma vibração fina nos músculos das coxas. Ela aceitou o peso dele — a âncora que a prendia ao colchão, à realidade, ao corpo que ainda a preenchia. O gozo arrefecia entre as suas pernas, a escorrer em fios mais lentos, menos quentes, mas o pénis dele continuava lá dentro, a esticar-lhe a carne molhada mesmo enquanto amolecia. 

Não doía — era só presença, ocupação, posse prolongada. Ela fechou os olhos. O pescoço exposto à boca frouxa dele, que não sugava, não lambia — apenas pousava, húmida, contra a pele onde o suor já secava no sopro quente da respiração. A respiração dela abrandou. 

O peito expandia-se contra o colchão, cada inspiração mais funda, mais lenta, a empurrar as costas contra o peito dele. Ele não saía. Ela não se mexia. As bocas em frouxas descansam coladas, os corpos fundidos, o gozo a secar entre as coxas dela.





Cléia Fialho

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