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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A ÚLTIMA VEZ QUE ELA DISSE NÃO




O quarto era escuro, mas não vazio. A luz do poste lá fora entrava pelas frestas da persiana, desenhando listras de sombra e claridade no corpo nu que se movia sobre o colchão. Ela estava de bruços, os braços estendidos, os dedos a arranharem o lençol como se tentasse agarrar-se a algo que já não existia.

Ele estava atrás dela. Não sabia o nome dele. Não queria saber. Os nomes eram desnecessários naquele jogo. O que importava era o peso do corpo dele sobre o dela, a respiração quente na sua nuca, a mão que apertava o seu pescoço com a força exata — suficiente para a imobilizar, insuficiente para a sufocar.

— Cala-te — disse ele, a voz rouca e baixa — não quero ouvir a tua voz.

Ela obedeceu. A boca permaneceu fechada, mas os olhos estavam abertos, fixos na parede à sua frente, onde as sombras dançavam como espectros. A mão livre dele desceu pela sua coluna, as unhas a riscarem-lhe a pele, desenhando caminhos vermelhos que ardem como fósforos acesos. Ela contraiu os músculos, mas não fez som. Não fez movimento.

A mão chegou ao seu centro, escorregou pela humidade que já escorria, e os dedos entraram sem aviso, sem lubrificação além do próprio desejo. Dois dedos, fundos, curvados para cima, a pressionarem a parede interna com uma precisão que a fez prender a respiração.

— Sentes? — perguntou ele, a boca colada ao ouvido dela.

Ela não respondeu. Não podia. A mão dele ainda apertava o seu pescoço, e qualquer palavra seria um gemido disfarçado.

Ele retirou os dedos devagar, e ela sentiu o vazio frio invadir-lhe o corpo. Mas não durou muito. Segundos depois, a ponta do membro roçou a sua entrada, e ele entrou com uma estocada seca, única, funda. O som que escapou dela não foi um gemido, foi um soluço rouco.

Ele começou a mover-se sem ritmo, sem cadência, como um animal que não conhece a música — apenas a fome. Cada estocada era um golpe. Cada movimento era uma tomada de posse. Ela sentia o colchão a tremer, a cabeceira a bater na parede, os próprios ossos a vibrarem com a força daquela penetração.

A mão que apertava o pescoço dela desceu até à sua boca e tapou-lha com violência. Os dedos entraram-lhe entre os lábios, forçando-a a senti-los, a lambê-los, a saber-lhes o sal.

— Chupa — ordenou ele — chupa os meus dedos enquanto te fodo.

Ela obedeceu. A língua enrolou-se à volta dos dedos, os lábios apertaram-nos, os olhos semicerrados. Ele sentiu a sucção e acelerou o ritmo, as estocadas mais curtas e brutais, o corpo dele a colidir com o dela como uma maré contra os rochedos.

Ela sentiu o gozo a subir, mas não o queria. Não naqueles termos. Não como uma rendição. Queria dominar aquela onda, fazer com que ele pedisse antes de a libertar. Por isso, contraiu os músculos internos, apertando-o, prendendo-o, controlando a profundidade de cada estocada.

Ele sentiu a pressão e parou.

— O que fizeste? — perguntou ele, a voz cortante.

Ela não respondeu. Apenas se virou debaixo dele, com um movimento rápido, e ficou de frente para ele. As pernas abraçaram-lhe a cintura e puxaram-no para dentro novamente, num movimento que o fez perder o equilíbrio.

Agora era ela quem estava por cima.

— Não sabes — sussurrou ela, a voz finalmente livre — que uma fera nunca se deixa montar sem morder?

Ela começou a mexer-se, o ritmo lento, profundo, os olhos fixos nos dele. Ele tentou segurar-lhe os quadris, mas ela afastou-lhe as mãos e prendeu os pulsos contra o colchão.

— A minha vez — disse ela.

Ela movia-se sobre ele como quem dança sobre um abismo. Cada subida era uma promessa, cada descida uma entrega. Ele gemia debaixo dela, os olhos revirados, a respiração descontrolada. Não era mais o predador — era a presa.

Ela inclinou-se para a frente e mordeu-lhe o lábio inferior com força suficiente para ele sentir o sangue. O sabor metálico misturou-se com a saliva, com o suor, com os gemidos que ambos já não conseguiam conter.

— Goza — ordenou ela, com a voz firme e gelada — goza, que eu quero ver-te desfazer.

Ele tentou resistir, mas não conseguiu. O corpo contraiu-se, os dedos cravados nas coxas dela, o líquido quente a jorrar dentro dela enquanto os músculos dele se desfaziam em ondas descontroladas. Ela não parou. Continuou a mexer-se, prolongando cada espasmo, cada tremor, até ele ficar imóvel e vazio.

Ela levantou-se devagar, o corpo ainda húmido, a respiração regular. Olhou para ele, deitado, ofegante, os olhos abertos para o tecto.

— Nunca mais me toques sem pedir — disse ela, e a voz não tinha raiva — tinha apenas verdade.

Vestiu a camisa, pegou na bolsa e caminhou até à porta. Antes de sair, virou-se e olhou-o pela última vez.

— E avisa os teus amigos. A próxima vez, trago um chicote.

A porta fechou-se atrás dela. O silêncio no quarto era absoluto. E ele ficou ali, nu, ofegante, vazio, a pensar como é que uma mulher tão pequena podia ter um domínio tão grande.






Cléia Fialho

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