TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

ATRITO SELVAGEM



Meus dias sem ti foram eras desérticas, séculos de cinza,
uma contagem maldita de madrugadas em que o vazio me habitava.

Nesses meses de exílio, 
fechei os olhos para te inventar na carne:
desenhei a tua boca em órbitas sinuosas, 
trajetórias oblíquas na minha pele,
alucinanda com o volume exato 
do teu corpo desabando sobre o meu,
o esmagamento perfeito que me devolve a vida.

Agora que a distância ruiu, 
inicio o movimento quase em câmera lenta.

Saboreio o atraso, a dilatação do tempo, 
cada milímetro de encaixe,
deixando que a fricção inicial 
seja uma tortura requintada.

Mas o freio arrebenta.

A cadência se transforma em galope, 
profundidade brutal, vertigem sem rédeas,
um impacto cego que busca 
o teu centro mais obscuro.

Exponho o meu peito ao teu instinto caçador,
erguendo a carne trêmula 
como um tributo à criatura que te habita.

Não tenhas pressa de ser gentil:
puxa-me com força, 
crava os dentes na minha aréola acesa,
esmaga os meus seios entre as tuas mãos famintas
e deixa que a dor e o prazer se fundam no mesmo grito.

Nossos corpos travam um combate sem sobreviventes,
onde o suor atua como o lubrificante desse atrito selvagem.

Cada estocada tua destrói um mês de solidão,
cada contração minha te prende mais fundo no meu abismo.

Somos a fome que se devora a si mesma,
um incêndio visceral que 
nenhuma madrugada será capaz de apagar.




  Cléia Fialho

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