Faz-me subir nessa onda sem retorno,
essa maré que arrasta sem pedir permissão,
essa vertigem lenta que sobe pelas coxas,
onde o prazer é abismo
e cada centímetro de queda é oração muda,
onde a razão se afoga antes de suplicar,
e eu sou o corpo que se lança,
que se abre, que se rende,
que se oferece sem defesa nem contrato,
que arqueia as costas ao teu comando mudo.
Perde-te nos meus vales,
demora-te no vale húmido entre os meus seios,
enterra a boca no vale morno do meu ventre,
afunda-te no vale profundo entre as minhas coxas,
nas curvas do meu leito de fome,
onde os lençóis já não fingem inocência,
onde o meu corpo se torce à tua procura,
onde cada dobra minha é um convite,
descobre em mim continentes
que ninguém teve coragem de mapear,
territórios secretos que guardei para ti,
paisagens obscenas que só a tua língua percorre,
grutas quentes que só os teus dedos exploram.
Beija-me até a razão dobrar-se,
até o pudor cair como roupa velha,
até eu esquecer as palavras que sabia,
morde-me até o silêncio ceder,
até o meu gemido rasgar o quarto,
até os meus dentes marcarem o teu ombro,
possui-me até o fim do tempo
tornar-se um único suspiro rouco
partilhado entre as nossas bocas,
até os ponteiros do relógio se rendam ao nosso ritmo,
até o mundo lá fora desistir de existir,
até só restar o teu corpo dentro do meu,
o meu suor a colar-se ao teu peito,
e a certeza obscena e absoluta
de que já não há retorno,
de que já não quero retorno,
de que sou tua até esta onda arrebentar
e ainda além dela,
já náufraga, já feliz, já perdida
nas águas quentes do teu abraço.