TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





quarta-feira, 22 de julho de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

MEU VÍCIO




Chamas-me com os olhos
antes mesmo de me chamares com a boca.
E eu vou —
vou como quem sabe que vai cair

segunda-feira, 20 de julho de 2015

ENTRE JOGOS E LABIRINTOS



Em cada toque, um sussurro,   
fragrância de pele fresca,   
o calor de um olhar ousado,   
a dança das mãos, suave,   
como folhas ao vento na primavera.   

Os sentidos se entrelaçam,   
sorrisos que desenham curvas,   
lábios que se encontram na brisa,   
cada palavra, um convite,   
cada gesto, um segredo.   

E o desejo, pulsante como um coração,   
encontra espaço entre os suspiros,   
explorando o mapa da alma   
onde o medo se dissolve,   
onde a coragem se revela.   

A poesia desenha texturas,   
um abraço que não se apressa,   
o ritmo da noite é nosso,   
cada verso, um espaço sagrado,   
onde a intimidade se expressa.   

Assim, entre jogos e labirintos,   
os sentidos despertam, nus,   
encontrando na ousadia   
a essência do amor,   
a pura arte de ser.




  Cléia Fialho

domingo, 19 de julho de 2015

A BANHEIRA



O vapor sobe primeiro.

Antes de ti, antes de mim, antes de qualquer gesto, é o vapor que enche o quarto, embaça o espelho, apaga o mundo lá fora como quem fecha uma porta que ninguém mais vai abrir.

Estou na banheira.
De olhos fechados, a nuca apoiada na borda, um braço caído para fora como uma vírgula no meio de um poema que ainda não acabou de ser escrito.

A água cobre-me até o peito.
Um dos meus joelhos emerge, ilha molhada, brilhando à luz das velas, que acendi sem te contar.

Tu ficas à porta por um instante, apenas a olhar-me.
Porque há coisas que a pressa estraga, e eu, assim, sou uma dessas coisas.

Abro um olho.
Sorrio devagar, sem levantar a cabeça.

— Vens ou ficas aí a contemplar?

Despes-te em silêncio.
A camisa, as calças, tudo cai com o peso de quem sabe que já não vai precisar de armadura nenhuma nas próximas horas.

Entras na água.
Está quase quente demais, essa temperatura exata em que a pele hesita antes de se render.
E tu rendes-te, como sempre te rendes a qualquer coisa que venha de mim.

Sentas-te atrás de mim.
As minhas costas encontram o teu peito com um encaixe que já não pede permissão.
Suspiro, um suspiro pequeno, antigo, de quem finalmente chegou.

Pegas no sabão.
Fazes espuma nas mãos, devagar, e começas pelos meus ombros.

Deslizas.
O sabão desenha caminhos que os teus dedos apenas seguem: a curva do meu pescoço, a clavícula que sempre te pareceu
um verso mal terminado, o vale entre os meus seios, onde a água se demora como se também não quisesse sair dali.

Fecho os olhos outra vez.
A minha cabeça tomba para trás, encontra o teu ombro, e fico assim, molhada, inteira, acolhida sem que ninguém precise dizer palavra alguma.

As tuas mãos descem.
Contornam os meus seios sem pressa, sem destino, como quem passeia por um lugar que já conhece de cor, mas nunca se cansa de visitar.

Continuas a descer.
Barriga. Ventre.
A água tem uma cumplicidade estranha: esconde e revela ao mesmo tempo.

Solto um gemido baixo.
Um som abafado pela água, capaz de fazer a superfície estremecer em pequenos círculos.

— Assim... — sussurro,e é a única palavra de que preciso.

A tua mão sai da água, sobe, encontra a minha nuca e aproxima-me ainda mais, como se ainda fosse possível estarmos mais perto.

Beijas o meu pescoço molhado.
O meu corpo começa a estremecer por dentro.
Sinto esse arrepio subir, percorrer-me lentamente e instalar-se na respiração, como um pássaro prestes a levantar voo.

— Espera... — digo. E logo depois:
— Não esperes.

Rio baixinho, nesse riso rouco que mistura emoção e entrega.
Abraças-me com mais força.
A água transborda em pequenas ondas, molha o chão, apaga duas velas, e nenhum de nós percebe, porque, naquele instante, o mundo inteiro cabe no teu abraço.

Permaneço assim, encostada ao teu peito, ouvindo apenas a minha respiração encontrar novamente o ritmo das coisas simples.

Passamos muito tempo assim.
A água vai arrefecendo devagar, mas nenhum de nós quer sair.
Sair seria voltar ao mundo, e o mundo, agora, parece um lugar completamente desnecessário.

Por fim, sussurro junto ao teu braço:

— Ainda temos a cama.

E tu ris baixinho, molhado, feliz de uma felicidade serena, e respondes:

— Temos a cama. Temos o chão. Temos a noite inteira.

E o vapor, teimoso, continua a subir.




  Cléia Fialho

sábado, 18 de julho de 2015

SEGREDO DO TOQUE



Luz que dança em pele exposta no segredo do toque suave,  
o sopro do desejo aflora,  
como brisa que acaricia o amanhecer.  

Sussurros de corpos entrelaçados,  
na penumbra onde os sentidos despertam em sinfonia mística,  
cada olhar um convite, 
cada gesto,  
um poema escrito em murmúrios.  

Luxúria enfeita os sonhos,  
como pétalas em flor,  
delicadas e ardentes,  
cada perfume é um testemunho do que arde em silêncio.  

Libido, 
que alimenta a chama da paixão fervente,  
teu poder é um abismo,  
onde a razão se dissolve na eternidade,  
e o instante se faz infinito.  

Em cada toque, a poesia se revela,  
nas danças que a noite sussurra,  
sensualidade é um verso,  
a vida uma estrofe,  
composta de anseios e suspiros.




  Cléia Fialho

sexta-feira, 17 de julho de 2015

AULA PARTICULAR

 



Cheguei atrasada. De propósito.

Sabia que ele estava a arrumar o estúdio — luzes baixas, o parquet a cheirar a cera, o cheiro dele já pousado no ar antes mesmo de me ver entrar. Dez semanas de aulas de tango. Dez semanas a fingir que era só isto: uma mulher a aprender a dançar.

Mas hoje era a última aula. E hoje eu não vinha para dançar.

— Chegaste tarde — disse ele, sem levantar os olhos, enrolando o cabo do gira-discos.

— Cheguei quando queria chegar.

Levantou o olhar. E aquele olhar dele — escuro, lento, o que sempre me atravessava de uma forma que a música nunca me atravessou — pousou-se-me no vestido preto colado. Deteve-se um segundo a mais no decote. Outro segundo a mais nas coxas.

— Vieste com um vestido para dançar tango?

— Vim com um vestido para o que quiseres.

Não riu. Não sorriu. Só se ergueu devagar, atravessou o estúdio, e apagou uma das duas lâmpadas. O quarto ficou em penumbra âmbar, quente, apertada.

Aproximou-se. Parou a um palmo.

— Sabes que se te tocar agora não é aula.

— Sei.

— E queres.

— Já sabes que quero. Desde a segunda aula que sabes.

Puxou-me pela cintura com uma mão só — aquele gesto seco de tango, mas sem música desta vez — e encostou-me a ele. Senti-o inteiro. Senti que também ele já estava a três semanas de não conseguir mais fingir.

A boca dele desceu-me pelo pescoço antes de tocar a minha. Um beijo lento no ombro, outro na curva da garganta, outro por baixo da orelha — e depois, só depois, subiu até à minha boca com uma paciência cruel que me fez gemer baixinho contra os seus lábios.

Beijou-me como quem termina uma dança que começou há muito.

As mãos dele encontraram-me o zíper das costas. Desceram-no devagar, milímetro a milímetro, e o vestido cedeu-me pelos ombros até me abraçar as ancas. Fiquei ali, no meio do estúdio deserto, com os seios nus, e ele afastou-se um passo só para me olhar.

— Que loucura — sussurrou.

Voltou. A boca desceu-me pelo peito e chupou-me o mamilo com uma força que me fez arquear as costas. Enterrei-lhe os dedos no cabelo. Puxei. Ele gemeu contra a minha pele e essa vibração desceu-me até ao ventre num arrepio que me fez tremer as pernas.

Levantou-me. Sentou-me em cima do piano vertical encostado à parede — o piano que ele nunca tocava, que servia só de decoração. Frio contra as minhas costas nuas. As minhas coxas caíram-lhe à volta da cintura como sempre tinham querido cair.

Empurrou-me o vestido para cima das ancas. Passou os dedos pela renda que me guardava, sem a tirar, apenas provocando, sentindo-me molhada através do tecido — e o sorriso pequeno que lhe apareceu na boca era o sorriso de quem tinha acabado de ganhar uma aposta antiga.

— Estás assim há quanto tempo? — perguntou-me contra a boca.

— Dez semanas.

Riu baixinho. Ajoelhou-se à minha frente.

E o que ele me fez em cima daquele piano com a boca — não sei se algum dia terei palavras para descrever. Puxou a renda para o lado e provou-me devagar, como quem prova algo que esperou muito tempo por provar, e eu tive de morder a mão para não gritar contra as paredes do estúdio.

A língua dele traçou-me em círculos lentos, depois rápidos, depois fundos. Uma das mãos dele subiu-me pelo ventre, encontrou-me o seio, apertou. A outra manteve-me as coxas abertas contra a madeira do piano. Eu segurava-me à tampa fechada atrás de mim, com o cabelo caído para trás, gemendo sem já me importar com nada nem ninguém.

Senti a onda a subir. Ele sentiu. Afastou-se.

— Ainda não.

Levantou-se. Ergueu-me do piano com uma facilidade que me fez rir e gemer ao mesmo tempo, virou-me contra a parede, e as minhas mãos abertas na madeira fria. Sentiu-me atrás. Levantou-me o vestido. Desapertou-se.

E entrou em mim de uma só vez — fundo, seco, sem paciência nenhuma.

Gritei. O grito saiu-me sem aviso, ecoou pelo estúdio deserto, e ele não o abafou — deixou-me gritar, quase quis que eu gritasse, e moveu-se dentro de mim com aquele ritmo antigo do tango que ele me tinha ensinado nas primeiras aulas, mas agora feito de outra coisa, feito de fome e de meses de espera.

Uma mão dele agarrou-me o cabelo, puxou-me a cabeça para trás, e a boca dele mordeu-me a nuca enquanto se enterrava mais fundo. A outra mão desceu-me entre as coxas, encontrou-me outra vez, e esfregou-me no ritmo exato em que se movia.

Vim contra a parede tremendo inteira, apertando-me à volta dele em espasmos que me tiraram o ar. Ele veio logo a seguir — dentro de mim, com um gemido rouco enterrado no meu ombro, agarrando-me as ancas com uma força que me deixou marcas para uma semana inteira.

Ficámos ali. Ofegantes. Colados. A minha testa contra a madeira, a boca dele no meu ombro, o suor a arrefecer devagar entre nós.

Beijou-me a curva do ombro nu. Um beijo estranhamente doce para o que tinha acabado de fazer.

— Ficas para outra aula? — sussurrou.

Sorri contra a parede.

— Fico para outra vida.

Ele riu baixinho. Voltou a ligar o gira-discos. E o tango — finalmente — começou a tocar.



  Cléia Fialho