TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A VARANDA



Fazia trinta e dois graus à meia-noite.
O calor que não deixa dormir, que faz o corpo pedir vinho gelado, janelas abertas e roupa nenhuma. Estávamos os dois na varanda do meu quinto andar — ele de calções, sem camisa, eu com uma camisa larga dele por cima da pele nua e nada por baixo.

O prédio da frente estava a três metros. Perto demais. Sempre foi.

— Aquela luz acesa é do velho do 4º — sussurrei, apontando com o copo. — Aquele que me olha sempre no elevador.
Ele sorriu, encostado ao ferro da varanda.

— Deve estar a olhar agora.
— Deve.

Bebeu um gole de vinho. Olhou-me de cima a baixo. E aquele olhar dele — lento, escuro, o mesmo que me despia todas as noites — fez-me apertar as coxas uma contra a outra sem pensar.
Ele reparou. Claro que reparou.

— Vem cá.
Fui.

Encostou-me ao ferro da varanda, de frente para o prédio da frente, com as suas mãos pousadas nas minhas ancas por trás. O peito dele quente contra as minhas costas, a respiração dele no meu pescoço, e a luz do 4º andar mesmo em frente aos meus olhos.

— Ele vai ver— sussurrei.
— Que veja.

A boca dele desceu-me pelo pescoço. Uma das mãos subiu-me por dentro da camisa, encontrou-me o seio nu, apertou. O mamilo endureceu-lhe contra a palma e eu deixei escapar um gemido pequeno que se foi perder no ar quente da noite.
A outra mão dele desceu.

Muito devagar, subiu-me a barra da camisa. Só um pouco. O suficiente para que se visse. O suficiente para que qualquer um a olhar de uma janela em frente entendesse o que estava a acontecer.

— Abre as pernas — sussurrou-me ao ouvido.
Abri.

Os dedos dele encontraram-me. Já estava molhada — molhada desde a segunda taça de vinho, molhada desde que ele tinha tirado a camisa — e ele gemeu baixinho contra o meu pescoço quando sentiu.

— Toda a gente vai perceber — disse. — Toda a gente que estiver a olhar.

Olhei para o prédio da frente. A luz do 4º andar continuava acesa. E no 6º, agora, tinha-se acendido outra. Uma silhueta atrás do cortinado.
O meu ventre apertou-se todo. Não sabia se era vergonha ou desejo. Provavelmente as duas coisas.

Os dedos dele mexiam-se dentro de mim num ritmo lento e cruel, o polegar em círculos exactos por cima, e eu tinha de me segurar ao ferro da varanda para não cair. As minhas ancas mexiam-se sozinhas contra a mão dele. A camisa aberta ao vento morno, os seios expostos à noite de Lisboa, e uma janela em frente onde alguém, com toda a certeza, estava a olhar.

— Não pares — gemi.
— Não paro. Mas quero-te de outra forma.

Virou-me. Encostou-me as costas ao ferro da varanda. Ajoelhou-se aos meus pés na varanda em plena vista de quem quisesse ver, levantou-me a camisa e a boca dele encontrou-me ali, quente, obscena, sem paciência.
Tive de morder o pulso.

A língua dele traçava-me em círculos lentos, depois rápidos, depois fundos — e eu já não sabia onde estava, se na varanda ou no céu ou em nenhum lugar. Uma das minhas mãos agarrou-lhe o cabelo. Puxei. Ele gemeu contra mim e a vibração fez-me arquear as costas contra o ferro quente.

Senti a onda a subir depressa.
— Espera — arfei. — Quero-te dentro.

Levantou-se. Baixou os calções num só gesto. Levantou-me uma perna, encaixou-a na anca dele, e entrou em mim ali mesmo — de pé, contra o ferro da varanda, com meia Lisboa a ver.
Gritei baixinho. Ele tapou-me a boca com a mão, sorrindo.

— Ssshhh.

Moveu-se fundo, lento primeiro, depois cada vez mais rápido. O ferro quente contra as minhas costas, o corpo dele a queimar contra o meu à frente, e a certeza — a certeza deliciosa, obscena, imparável — de que estávamos a ser vistos.
Olhei por cima do ombro dele. A silhueta do 6º andar continuava lá, imóvel atrás do cortinado.
Isso fez-me vir.

Vim com um gemido abafado contra a mão dele, tremendo inteira contra o ferro, e ele veio logo a seguir, mordendo-me o ombro para não gritar, empurrando-se dentro de mim uma última vez enquanto tremia todo.
Ficámos ali um instante. Ofegantes. Suados. O calor da noite colado à pele.

Ele afastou-se devagar. Compôs-me a camisa com uma ternura estranha para o que tinha acabado de fazer. Beijou-me a testa.

— Achas que ele viu?— sussurrei.
Olhou para o prédio da frente. Sorriu.

— Ele e mais três.
Ri contra o peito dele.
E servi mais vinho.




  Cléia Fialho

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

ENTRELAÇOS DE SENTIDOS



Nos sussurros da noite,
teus lábios são melodia,
tocam-me suavemente,
com a delicadeza 
de um vento noturno.

Teu olhar, faíscas de fogo,
acende labaredas em meu ser,
esculpindo desejos ocultos,
em cada curva do meu sonho.

No abraço do silêncio,
nossas almas dançam,
num balé de suspiros,
onde o tempo se desfaz.

Teu perfume, um jardim secreto,
embriaga, enlaça, envolve,
numa dança de pétalas,
que floresce em minha pele.

E assim, em versos e toques,
tecemos a sinfonia dos sentidos,
num poema onde somos eternos,
e o desejo é o nosso amor.




  Cléia Fialho

terça-feira, 18 de agosto de 2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CADA GOLE UM DESEJO



Nos labirintos do toque,   
os sentidos dançam,   
despertam sussurros,   
na brisa suave da pele,   
um convite ao desconhecido. 

A ousadia flui,   
como vinho tinto   
derramado em taças,   
cada gota uma promessa,   
cada gole um desejo. 

Teus olhos fixos,   
claros como a manhã,   
desnudam segredos   
que, pulseando, se entrelaçam   
nas sombras de um abraço. 

A música da noite   
embala nossos ritmos,   
corações descompassados   
​​encontram a melodia,   
uma sinfonia íntima. 

E ao final do caminho,   
é na entrega que se encontra   
a verdadeira essência,   
a poesia da carne,   
a arte de ser e sentir.




  Cléia Fialho

domingo, 16 de agosto de 2015

QUARTO 47



Vi-o ao balcão do bar do hotel.

Estava sozinha em Lisboa, numa viagem de trabalho que já tinha acabado, com um voo às sete da manhã e uma cama de hotel que não me apetecia nada. Desci ao bar por causa do tédio. E ali estava ele — de fato escuro, gravata desapertada, um whisky à frente e um livro que fingia ler.
Sentei-me dois bancos ao lado. Pedi um gin.
Ele olhou-me pelo canto do olho. Sorriu meio de lado.

— *Também não consegues dormir?*
— *Não tentei.*
— *Boa política.*

Sorri. Bebemos em silêncio uns segundos. Ele olhava-me no espelho atrás do balcão — os olhos escuros, o queixo áspero de fim de dia, o tipo de homem que não pergunta nome à primeira porque sabe que nome não interessa.

— *Estou no 47* — disse, sem se virar. — *Se te apetecer subir.*

Não respondi. Terminei o gin. Levantei-me. E fui até ao elevador sem olhar para trás — mas sabia que ele vinha atrás, ouvia-lhe os passos no mármore, e o corpo inteiro já me formigava antes de o elevador se abrir.
Entrámos. As portas fecharam.
Ele não me tocou logo. Ficou encostado à parede oposta, a olhar-me de cima a baixo com uma lentidão que me fez arrepiar. Como se me estivesse a despir com os olhos antes de o fazer com as mãos.

— *Como te chamas?* — perguntei.
— *Interessa?*
— *Não.*
Sorriu. Chegámos ao quarto andar.

Entrámos no 47. Ele fechou a porta com o pé e nesse mesmo segundo empurrou-me contra ela. A boca dele encontrou a minha com uma fome de estranho — sem carinho, sem história, só fome — e eu abri-a de imediato, deixei-o entrar, mordi-o de volta.
As mãos dele arrancaram-me o vestido pelos ombros. Caiu-me até à cintura. Ele afastou-se um segundo só para olhar — os meus seios nus, o soutien preto ainda meio subido — e o olhar dele fez-me arder mais do que qualquer toque.

— *Uiuiuiui* — murmurou.

Voltou. A boca dele caiu-me no seio, chupou-me com uma força que me fez gemer alto, e a mão dele subiu-me por baixo do vestido até encontrar a renda. Não a tirou — rasgou-a. Ouvi o tecido a ceder e o meu ventre apertou-se todo.

— *Vais pagar-me isso* — sussurrei.
— *Pago tudo o que quiseres.*

Empurrou-me até à cama. Caí de costas. Ele arrancou a gravata, a camisa, o cinto, tudo numa pressa que me fez rir e gemer ao mesmo tempo. Quando ficou nu, ajoelhou-se aos pés da cama e puxou-me pelas ancas até me ter à beira do colchão.

Abriu-me as pernas com as mãos.
E a boca dele encontrou-me — quente, molhada, sem paciência nenhuma. A língua dele traçou-me devagar, depois rápido, depois fundo, alternando ritmos até eu não saber mais o que fazer com o corpo. Enterrei-lhe os dedos no cabelo. Puxei. Ele gemeu contra mim e a vibração fez-me arquear a coluna toda para fora do colchão.

— *Espera* — arfei. — *Espera, quero-te dentro.*

Subiu por cima de mim. Ainda com o meu gosto na boca, beijou-me — obsceno, molhado — e entrou em mim de uma só vez, fundo, até ao fim.
Gritei.
Não me importei. Não conhecia ninguém neste hotel, não conhecia ninguém nesta cidade, não conhecia sequer o nome do homem que estava dentro de mim.

Ele começou a mover-se — devagar primeiro, deixando-me sentir cada centímetro, e depois cada vez mais rápido, cada vez mais fundo. Levantou-me uma perna, pô-la sobre o ombro dele, e o ângulo mudou tudo. Senti-o tocar-me num sítio que me fez ver preto por trás dos olhos.

— *Assim* — gemi. — *Assim, não pares.*

Não parou. Uma mão dele encontrou-me entre os corpos, o polegar a esfregar-me no ritmo exacto em que se movia, e eu senti a onda a subir depressa, imparável, brutal.

— *Vou vir.*
— *Vem para mim.*
Vim.

Vim a arranhar-lhe as costas, a apertar-me à volta dele em espasmos que me fizeram gemer sem parar, e ele gemeu contra o meu pescoço — um gemido rouco, animal — e empurrou-se três, quatro vezes mais fundo antes de tremer inteiro sobre mim e vir com um palavrão sussurrado ao meu ouvido.
Ficámos ali, ofegantes, colados pela transpiração.
Beijou-me a curva do ombro. Um beijo estranhamente doce para dois estranhos.

— *Ficas?* — perguntou.
Olhei o relógio. Cinco horas até ao voo.
— *Fico até ao segundo round.*
Riu contra a minha pele.
— *Isso dá para três.*
E deu.

De manhã, saí sem o acordar. Não deixei bilhete. Não perguntei o nome.
Algumas noites são só isto — e é perfeito assim.




  Cléia Fialho