Somos dois silêncios que se procuram no escuro,
duas respirações a costurar a mesma noite,
o teu peito a colar-se ao meu como um segredo antigo.
Não há relógio que meça o que teço contigo,
nem espaço que caiba este querer que me transborda —
sou toda margem quando as tuas mãos me atravessam.
Escrevo-te com a boca em cada centímetro exposto,
leio-te devagar pela linha das costas,
decoro o teu gosto no avesso da minha língua.
Rendo-me sem pudor à tua fome mansa,
abro-me como fruta madura sob o teu dente,
deixo-te descer por mim como um rio quente.
Aperta-me forte que o mundo lá fora se esqueça,
morde-me esse último pedaço de vergonha,
faz-me esse verso que só a pele sabe dizer.
Somos duas ondas a rebentar na mesma praia,
dois corpos a inventar um idioma sem palavras —
e eu volto a nascer cada vez que gemes o meu desejo.
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