Segunda-feira, 23h51
Comprei este caderno hoje. Vai guardar o que ele me faz.
No hotel, sentou-me na secretária, abriu-me as coxas devagar, e a boca dele desceu-me até me fazer implorar. Vim contra os seus dentes, com as pernas a tremerem sobre os seus ombros, gritando um palavrão que nunca me tinha ouvido dizer. Depois pôs-me de joelhos no tapete e disse "agora és tu." E eu obedeci — provei-o inteiro, engoli-o, olhei-o nos olhos quando ele veio na minha boca. Ainda tenho o gosto dele por baixo da língua enquanto escrevo.
O meu marido dorme ao lado. Cheiro os meus dedos e estremeço.
Terça-feira, 01h12
Fiz-me contra a almofada esta noite, a pensar nele. Fechei os olhos e recuperei ontem, tim tim por tim tim: a mão dele a apertar-me o pescoço, a voz baixa a chamar-me sua puta, os dentes dele a deixarem-me marcas no interior das coxas que hoje me arderam no elevador do escritório.
Chamei-lhe senhor uma vez, sem querer. Ele riu contra a minha coxa: "outra vez." E eu disse. E disse mais três, até ele me levar até ao fim com só a língua, devagar, como se tivesse a noite inteira para me destruir.
Vinte anos casada e nunca tinha gozado assim. Nunca.
Quarta-feira, 02h30
Casa de banho do escritório.
Ergueu-me para o mármore frio, rasgou-me a renda com os dedos — ouvi o tecido a ceder — e entrou em mim de uma só vez, fundo, sem paciência para preliminares. Vim em três minutos, mordendo-lhe o ombro por cima da camisa para não gritar. Ele veio dentro de mim com a boca colada à minha, um gemido rouco engolido entre as línguas.
Deixou-me a escorrer sobre o mármore. Não me limpei bem. Voltei à reunião com as coxas coladas uma à outra, sentindo-o descer por dentro da meia enquanto o meu chefe falava de números.
Nunca me senti mais viva. Nunca me senti mais dele.
Quinta-feira, 23h20
Jantou cá. Com a mulher. Com o meu marido à mesa.
Ao café, seguiu-me ao meu quarto com desculpa de wi-fi. Empurrou-me contra a porta, ergueu-me o vestido pelas ancas, puxou a minha cueca para o lado, e enterrou dois dedos em mim enquanto me tapava a boca com a outra mão para eu não gemer. Vim em três minutos, com o meu marido a rir-se lá em baixo de qualquer piada da mulher dele, com os dedos dele a saírem molhados do meu corpo e a subirem-me à boca para eu os chupar.
Descemos com dois minutos de diferença. Servi mais café. A minha renda ficou torcida por baixo do vestido, e cada vez que me mexia na cadeira sentia-o dentro de mim outra vez.
Nunca me odiei tanto. Nunca me quis tanto.
Sexta-feira, 03h04
Hotel de sempre. Foi diferente hoje.
Prendeu-me os pulsos à cabeceira com a gravata dele. Passou uma hora inteira a torturar-me com a boca — a chegar-me perto, a afastar-se, a rir baixinho quando eu implorava. Quando finalmente entrou em mim eu já não sabia como me chamava. Cavalgou-me com uma lentidão cruel, mão fechada no meu pescoço, olhos nos meus, dizendo-me obscenidades ao ouvido que eu nunca vou repetir.
Vim três vezes antes de ele me deixar descansar. Depois, deitado ao meu lado, com o dedo a percorrer a minha coluna, disse:
— Deixa-o. Vem viver comigo.
Fiquei calada tanto tempo que ele percebeu que não era não. Era medo.
Se ele bater à minha porta amanhã, eu abro.
Sábado, 04h47
Bateu. Com mala.
Puxei-o para dentro. No corredor: rasgou-me a camisa de dormir, ajoelhou-se, provou-me contra a parede até eu escorregar para o chão a tremer. Depois, no sofá: cavalguei-o de frente, mordendo-lhe o pescoço até deixar marca, sentindo-o pulsar cada vez mais fundo. Na cozinha: dobrou-me sobre a mesa, entrou por trás com uma mão no meu cabelo e a outra no meu clítoris, e fez-me gritar tão alto que os vizinhos com certeza ouviram.
Acabámos na cama que sempre foi do meu marido. Ele veio dentro de mim três vezes esta noite. Vou deixar os lençóis assim.
Quando o meu marido voltar amanhã do congresso, quero que veja. Quero que sinta o cheiro. Quero que saiba, ao olhar-me, que eu já não sou dele há muito.
Domingo, 22h30
Chegou às três. Percebeu antes de eu falar. Chorou no corredor.
Eu não me mexi. Fiquei a olhá-lo com o cheiro do outro homem ainda no meu corpo, com uma mordida no ombro que a blusa não escondia, com o cabelo desfeito da noite que não tinha acabado quando o meu marido chegou.
Arrumou uma mala e saiu. Sentei-me no chão da entrada — mesmo no sítio onde a noite anterior me tinha entregado — e passei o dedo pela mordida.
Depois liguei-lhe.
— Estou à tua espera.
— Vou já.
Vou pôr este caderno na gaveta de baixo, atrás das meias antigas. Vou fechar a casa. Vou meter-me na cama dele, no hotel, e vou deixá-lo tomar-me tantas vezes quantas ele quiser — sem relógio, sem culpa, sem nome falso na recepção.
Aos quarenta e três, começo hoje a viver a minha vida.
Fecho o caderno.
Cheiro-lhe o couro uma última vez.
E vou.
❦
Cléia Fialho
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