Todo seu corpo chega a ser um pecado de carne viva
Um convite suado à paixão que lateja e exige
Ao desejo ardente que queima a roupa e a razão
Em seus lábios eu sinto o gosto lambuzado de mel e sexo
E o resto do mundo apaga e deixa de existir.
Desço pela curva do teu pescoço tenso
Mordendo cada centímetro que pulsa e chama
Minhas mãos traçam fronteiras que se perdem na tua pele
Enquanto o lençol enrola e sufoca nossos gritos roucos
Não há mais pecado que não seja sagrado aqui dentro
Não há gosto que não seja liturgia de boca aberta
Tua cintura arqueia-se como um arco pronto para soltar
E eu solto o verbo em gemidos que não traduzem nada
Senão o fogo que sobe e consome o ar que ainda sobra
Seu corpo é igreja e profanação simultânea
Onde eu me ajoelho e te devoro como oração final
Lambuzo-me em ti e volto a começar do princípio do delírio
Cada mordida um mapa, cada toque um grito abafado
Não há mundo diferente senão esse quarto escuro e úmido
Onde o tempo desacelera e o suor escreve o destino
Nossas línguas dançam e tateiam o limite da lucidez
Perdendo a forma, encontrando a fome
A noite é longa e o pecado é feito para ser repetido
Até que a carne não saiba mais
onde ela termina e onde eu começo.
❦
Cléia Fialho
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