Escolho-te como vítima do meu vício mais cru,
para que ardas comigo no abismo onde o prazer não tem fundo.
Transformo tua boca em punhal que me atravessa devagar,
matando-me de gozo em mordidas que deixam marca na carne.
enquanto eu arqueio e ofereço o pescoço, o ventre, a fenda.
Faço-te dono dos meus gritos quebrados,
carrasco dos meus arqueamentos,
executor dos suspiros que guardei trancados no peito.
És o sacerdote da minha fome enterrada,
e eu abro as coxas como altar vivo,
onde o suor é incenso,
onde cada estocada é prece profana,
onde cada gozo é absolvição selvagem.
Penetras-me fundo e sem perdão,
a carne se abre em fogo,
os fluidos escorrem em rios,
e eu morro de prazer em teus braços.
Não há redenção.
Apenas nós dois,
destruídos e eternos no inferno particular
que inventamos com línguas, dentes e sexo.
❦
Cléia Fialho

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