— A CHEGADA —
Tu entras como quem não vai ficar
mas eu vejo no teu jeito de fechar a porta
que tu já estás dentro de mim antes de me tocares.
Tu tiras o casaco e ele cai no chão
eu não o apanho — quero ver tu desabares também.
Tu me olhas como quem lê um livro
e eu sinto cada página virar no meu peito.
— O MEIO —
Tu me puxas pela calça e eu tropeço nos teus pés
nós caímos no sofá e o mundo vira trapézio
Tu estás por cima e eu não quero estar por cima
quero estar debaixo — quero ser coberto por ti.
Tuas mãos não param
Teus lábios desenham ruas no meu pescoço
e eu me perco nelas como turista sem mapa.
Teu quadril desce e eu subo
num balé torto e suado
que ninguém ensaiou
mas que os dois sabemos de cor.
— O QUE FICA —
O silêncio depois é quente e macio
tipo coberta de lã que a gente não quer largar
Tu estás deitado no meu peito
e teu coração ainda corre igual cavalo.
Eu passo os dedos no teu cabelo
e tu fechas os olhos
como se o mundo fosse esse instante
e nada mais.
Tu não dizes "te amo"
eu não digo "fica"
mas quando tu levantas pra ir embora
tu olhas pra trás
e eu sei que tu vais voltar.
porque o que a gente fez
não cabe numa despedida
cabe só num reencontro molhado
— igual esse
— igual todos.
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