TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

quinta-feira, 30 de junho de 2022

COMO LÍNGUA DE FOGO



Tuas mãos não tocam —
elas invadem como língua de fogo em carne viva.
Não há leveza 
— há garra, há dente, há sede.
Cada dedo é unha raspando o avesso do meu silêncio.

Teu toque não acaricia: ele desbrava
fundeia na curva do quadril
escava a nuca
morde a coxa por dentro
e eu tremo igual animal pressentindo o abate.

Tuas palmas escorregam suor e fúria
desenham ciclones na minha espinha.
E enquanto descem
minhas vísceras viram rio
meu peito vira grito
meu sexo vira fera pronta pra morder tua mão.

Não peço calma — peço o estrondo
que tuas unhas prometem quando roçam meu ventre.
Quero que tua mão feche como garra no meu pescoço
enquanto a outra me abre
como fruta
como ferida
como porta que não tranca mais

Teu dedo mindinho desce devagar
e cada milímetro que ele ganha
eu perco o chão
perco o medo
e fico só esse músculo quente
implorando pra ser mordido de novo.




  Cléia Fialho

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