TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

domingo, 5 de junho de 2022

RIO QUE EU BEBO E REAQUEÇO



Eu cavalgo o teu peito, eu mordo o teu queixo,  
eu chupo o teu ombro, eu arranho o teu flanco,  
teu gozo é um rio que eu bebo e reaqueço,  
e o meu é um vulcão que se espalha em branco.  

Depois, no chão, com os dedos ainda presos,  
eu sinto o teu coração bater na minha nuca,  
e o cheiro da pele – sal e avesso –  
me diz que o inferno também se chupa.  

Teu nome é uma faca, teu corpo é uma cela,  
mas eu abro a porta e entro pelada,  
eu sou a tua puta, a tua sentinela,  
e a noite inteira é uma só braçada.  

Não me solta, não me esquece, não me limpa,  
que eu quero o teu suor na minha saliva,  
quero a tua mão na minha nuca, em cinza,  
e a tua boca – ainda viva, ainda viva.

Escorrego de joelhos no ladrilho frio,  
raspo o queixo na curva da tua coxa,  
e a casa range – não é telha, não é cio,  
é a fome que desaba e te desaprova.  

Lambejo o sal que te escorre do osso,  
o teu gemido é um galho que estala,  
eu mordo a prega, eu lambo o destroço,  
e o teu quadril gira – cobra que não se cala.  

Rebento cada botão com os dentes,  
rasgo a costura com a unha trêmula,  
teu peito é dois punhos quentes,  
eu chupo o suor, eu arranho a gema.  

Desço a língua pelo mapa do ventre,  
traço rios onde o pulso acelera,  
teu umbigo é um olho que me entre,  
e a saia sobe – vela que se altera.  

Enfio a cara no teu vale molhado,  
cheiro o musgo, o breu, a ferrugem,  
teu cheiro é um grito atravessado,  
e eu bebo o tremor, eu como a espuma,  
eu vou fundo – até o osso ser barro,  
até o teu grito rachar o ar,  
e o chão sumir no nosso desabarro.  

Teu dorso arqueia, teu calcanhar me prende,  
eu mordo o lábio que te desabrocha,  
o quarto incendeia, o tempo se rende,  
e cada gole é uma faca que me soca.  

Sangro de desejo, cuspo teu nome,  
enrolo a língua no teu eixo duro,  
tu me puxas pelos cabelos – fome,  
eu gemo baixo, eu rasgo o escuro.  

Agora de quatro, agora de costas,  
o lençol vira espuma, vira lama,  
teu dedo entra – seta grossa,  
e eu ardo inteira, eu ardo em chama.  

Não para, não para, não para o ritmo,  
o suor escorre, o grito se embola,  
teu beijo desce, teu beijo é um abismo,  
e a cama range como uma proa.  




  Cléia Fialho

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