Meu corpo não é casa
é fogueira que aprendeu
a dançar sem sair do lugar
enquanto tuas mãos
— brasas disfarçadas de vento —
me desenham inteira
em cada curva que invento.
Não quero ser abrigo
quero ser o incêndio
que te desaba por dentro
quando teus dedos
percorrem meu mapa
de rios e montanhas
que só tu sabes ler
com a língua molhada
de pressa e de calma.
Teu olhar me rasga
e eu agradeço
porque todo corte
me ensina uma nova maneira
de arder.
Minha respiração é o fôlego
que teu peito rouba
quando minhas coxas
escrevem no ar
a palavra que não cabe
em nenhum dicionário
mas cabe inteira
no vão da tua boca.
Sou mulher de fogo manso
que se acende sozinha
mas gosta de sentir
teu sopro avivando
minha cinza ainda quente.
Não sou morada
sou labareda viajante
que escolheu tuas mãos
pra descansar um instante
antes de queimar de novo
mais alto, mais distante
mais fundo que o instante.
Teu corpo é o meu espelho
quando nele me vejo
tremendo, inteira, nua
como se o fogo fosse
a única roupa que me veste
quando a noite é tua.
E nesse espelho eu danço
sem medo de me quebrar
porque cada estilhaço meu
é uma fagulha a te procurar.
Deixa queimar.
Deixa que o tempo
se derreta em nossa pele
como cera de vela
que não sabe se apaga
ou se acende mais bela.
Minha voz é o crepitar
que te chama sem pressa
te convida, te despe
te reza, te atravessa
e no fim do ritual
— quando a chama já não cabe
no pequeno círculo do quarto —
eu ainda sou a brasa
que te espera, deitada
sobre os lençóis que ardem
como se fossem de nada.
Porque arder não é destino
é escolha.
E eu escolho
cada centímetro teu
como se fosse a última vez
que o fogo aprende
a dizer meu nome
sem precisar de voz.
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