A sede não é água, é sal de estrelas
que escorre pelos poros da noite,
transformando a língua em mapa antigo
de terras que nunca existiram.
Bebo-te como quem bebe o abismo,
teu corpo é um espelho líquido
onde me vejo dissolver,
gota a gota, na superfície fria
do teu nome esquecido no vento.
Aquece-me não com fogo,
mas com a geografia errada
dos teus ossos que se fundem
ao meu esqueleto de vidro.
Proferir-me é gritar em silêncio,
é ser a palavra que não sai,
mas fica presa na garganta
de quem te habita sem permissão.
No teu corpo, sou o eco vazio,
o poema que não tem fim,
a sombra que dança ao contrário
da luz que nos nega o direito
de sermos apenas carne e ar.
Bebe-me também, bebe o medo,
o desejo que se torna raiz,
e deixa que eu me perca
na tua pele que é o mundo inteiro.