Saboreamos o fogo que nos consome.
O tempo se curva aos nossos desejos.
Olhos nos olhos,
expressamos o que sentimos.
E enquanto o mundo lá fora insiste
em seu compasso de relógios exaustos,
nós dois inventamos um relógio novo
feito de bocas colando-se e afastando-se,
de mãos que descem pela coluna
como quem lê um verso com os dedos.
Deitas-me devagar sobre o lençol quente,
abres-me as coxas com a paciência dos que sabem
que a pressa é inimiga do gozo profundo,
e a tua boca desce por mim em espiral lenta,
demora-se no vale morno entre os meus seios,
morde-me a curva sensível dos flancos,
prova-me o ventre com a língua molhada,
até chegar onde eu já te espero
desde o primeiro olhar desta noite.
Provas-me sem pressa nenhuma,
como quem tem a noite inteira nas mãos.
Cada movimento da tua língua é um verso,
cada suspiro rouco que sais é uma vírgula,
cada mordida delicada é ponto de exclamação
gravado a fogo nas dobras da minha carne.
Arqueio-me contra a tua boca faminta,
enterro os dedos no teu cabelo,
puxo-te para mim com uma exigência
que só o desejo mais visceral conhece,
e tu ris rouco contra o meu ventre,
sabendo perfeitamente onde me perder.
Vim contra a tua boca com um grito abafado,
mas tu não paras — nunca paras quando eu peço.
Sobes por mim beijando o caminho que percorreste,
provo-me em ti quando os teus lábios encontram os meus,
e entras em mim de uma só vez, fundo, obsceno,
até o meu corpo inteiro ceder ao teu peso.
Movemo-nos no compasso antigo dos amantes,
quadril contra quadril, ventre contra ventre,
suor a escorrer entre os nossos peitos colados,
gemidos que já não pertencem a nenhum dos dois
porque se misturaram no ar até virarem só um som,
uma única súplica selvagem de duas gargantas.
Ergues-me as ancas com as mãos firmes,
enterras-te ainda mais fundo, ainda mais teu,
e a minha voz rasga o silêncio do quarto
num grito que amanhã os vizinhos hão-de fingir não ter ouvido.
Não paras. Não parei eu. Não paramos.
Cavalgamos a noite até as tábuas do soalho tremerem,
até o lençol se torcer em farrapos molhados,
até a manhã espreitar tímida por trás da persiana
e o nosso primeiro raio de sol nos apanhar ainda enroscados,
tu ainda dentro de mim, exaustos, sorrindo em silêncio.
E foi aí — só aí — que percebi
que a redenção que procurávamos não era da alma:
era da carne, do ventre, da boca, da pele,
da coragem obscena de nos entregarmos inteiros
sem contrato, sem pudor, sem defesa nenhuma —
tu, dentro de mim; eu, entregue a ti —
e o mundo lá fora, pequeno, distante, esquecido,
enquanto nós dois inventamos um evangelho novo
feito de gemido, gozo e madrugada.
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