TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

quinta-feira, 1 de junho de 2023

ENTRE MEUS QUADRIL, O RITUAL DO FOGO




Não peço permissão ao desejo –  
ele me habita como rio que desconhece a foz.  
Meu corpo não é tela, é labareda,  
é língua que lambe o ar antes do beijo.

Sou a curva que desaprendeu a espera.  
No colo, o peso do mundo se dissolve  
quando minhas coxas abrem o compasso  
de uma dança que só a pele conhece.

Meus dedos escrevem no dorso do outro  
um alfabeto que nenhum dicionário ousa.  
Cada arranhão é vírgula,  
cada mordida, ponto-final que recomeça.

Respiração ofegante é minha rima preferida –  
sem métrica, sem pudor, sem freio.  
Meu suor é estrofe líquida,  
meu gemido, refrão que não se repete  
porque cada vez é a primeira.

Deslizo como maré que invade a areia  
sem aviso, sem roteiro, sem piedade.  
E quando o corpo do outro me encontra,  
eu não sou mais mulher –  
sou território, sou fenda, sou abismo,  
sou a mão que guia o naufrágio.

Meu prazer não tem nome, tem gosto,  
tem cheiro de aurora entre os lençóis,  
tem pressa de ser lento,  
tem medo de acabar –  
e acaba, sim, mas deixa o eco  
tremendo dentro do osso.

Sou poesia ereta,  
verso que pulsa onde a luz não alcança.  
Não me leia com os olhos –  
me leia com a ponta dos dedos,  
com a língua trêmula,  
com a entrega de quem sabe  
que o êxtase também é literatura.

E quando eu arder por inteiro,  
não apague o incêndio.  
Escreva com ele.  
Me escreva com ele.  
Sempre.




  Cléia Fialho

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