Os dias rodam como folhas secas,
e nosso amor se arrasta em gesto lento
— meu peito é um tambor que descompassa,
minha pele, um poema em desalento.
Espero, sim. Mas não com mãos vazias:
teço o fio do desejo em cada veia,
molho a boca no sal das agonias
e invento tua forma na areia.
Dono de mim, de meus mapas e ventos,
teu corpo é o cais onde o verso naufraga
— não me peças silêncio nem juramentos,
que a espera é dança, e a dança, uma chaga.
Se tens outros mundos, outras rotas,
eu sou a lua que vira o teu mar,
e no teu colo – foz de todas as notas –
aprendi a doer e a cantar.
Não venhas por hora, nem por promessa:
vem como o tempo que não se mede,
despe a agenda, a pressa, a nobreza,
e deita em mim tua fome de sede.
Que eu sou o fruto que teu nome chama,
o sal que lambe tua curva nua,
e se o dia não cabe em tua cama,
faz da noite uma fruta crua.
Porque sem ti, o gozo é uma concha vazia,
e a vida, um rumor sem profundeza:
és, em mim, a única rebeldia
— homem-maré, minha eterna aspereza.
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