TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

terça-feira, 27 de junho de 2023

HOMEM-MARÉ




Os dias rodam como folhas secas,  
e nosso amor se arrasta em gesto lento  
— meu peito é um tambor que descompassa,  
minha pele, um poema em desalento.  

Espero, sim. Mas não com mãos vazias:  
teço o fio do desejo em cada veia,  
molho a boca no sal das agonias  
e invento tua forma na areia.  

Dono de mim, de meus mapas e ventos,  
teu corpo é o cais onde o verso naufraga  
— não me peças silêncio nem juramentos,  
que a espera é dança, e a dança, uma chaga.  

Se tens outros mundos, outras rotas,  
eu sou a lua que vira o teu mar,  
e no teu colo – foz de todas as notas –  
aprendi a doer e a cantar.  

Não venhas por hora, nem por promessa:  
vem como o tempo que não se mede,  
despe a agenda, a pressa, a nobreza,  
e deita em mim tua fome de sede.  

Que eu sou o fruto que teu nome chama,  
o sal que lambe tua curva nua,  
e se o dia não cabe em tua cama,  
faz da noite uma fruta crua.  

Porque sem ti, o gozo é uma concha vazia,  
e a vida, um rumor sem profundeza:  
és, em mim, a única rebeldia  
— homem-maré, minha eterna aspereza.




  Cléia Fialho

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