Teu olhar não invade – rasga-me as vestes
antes que os dedos toquem o meu ombro.
Pétalas de neon deslizam moles
onde a minha nuca é um vulcão sombrio.
Tuas mãos sobem como videiras loucas
e eu me abro em espiral,
úmida e nua, cúmplice, assiste
ao nosso ritual de luas que se estua.
Teu corpo é a tinta que me escreve inteira
— cada veia, um rio que se entrega ao teu leito,
cada osso, uma harpa que vibra quando tocas
o centro onde o meu nome arde e se desfaz.
Bailamos sobre o fio de um abismo doce:
tuas ondas em mim, minhas marés em ti,
e a cama vira céu, o lençol, um mito
onde dois astros caem para renascer.
Ah, mas a alquimia não está nos gestos –
está no intervalo entre o teu sopro e o meu,
no instante em que a tua língua traça runas
no mapa molhado do meu ventre-cru.
Versos se espalham como sêmen lírico,
rimas que latejam na curva do quadril,
e todos os sentidos se confundem:
cheiro-te a sal, toco-te a anil.
Somos amantes em concupiscência pura,
mas não há posse aqui, nem dominação:
é entrega que se dobra, se desdobra,
cada espasmo, uma estação.
Os ais não são de dor – são de memória,
de um corpo que se lembra antes de ser,
e no instante exato em que me despedaço,
gesto um poema que nunca vai morrer.
Porque o erótico não é o que se mostra –
é o que se esconde no vazio entre dois dentes,
no suor que escorre e desenha deltas,
no nome que eu grito e tu finges ausente.
E quando a noite cai sobre nossos ombros,
e as estrelas se apagam por pudor,
eu sou ainda a fêmea que te chama
num grito que é verso, oração, flor.
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