TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

quinta-feira, 29 de junho de 2023

O PRAZER SE AGIGANTA




Não sou poema, sou o pulso que o poema não ousa.  
Sou o rio que transborda sem pedir licença –  
minha água não é doce, é salgada, é memória,  
é o gosto que fica na boca depois do grito.

No silêncio da noite, eu me despiro das palavras.  
Meus versos não se dizem – eles se contraem,  
se arqueiam, se abrem como flor que aprendeu  
que o sol também se beija com a língua.

Minha cadência não vem do coração,  
vem do chão que treme sob meus joelhos,  
vem da coxa que se fecha e se abre  
como livro que ninguém quer terminar.

Deito no escuro e invento novas rimas:  
o arfar que não cabe na métrica,  
o gemido que estilhaça o refrão,  
o instante em que o corpo esquece o nome  
e vira apenas direção, apenas fenda,  
apenas o ponto onde a mão encontra  
a umidade da madrugada.

Minhas unhas escrevem nas costas do outro  
um alfabeto que arde –  
cada risco é uma letra,  
cada vermelhão é uma vírgula que pede mais,  
mais fundo, mais demorado,  
mais dentro do dentro.

Não há rima que alcance o que meu quadril desenha.  
Não há metáfora que segure  
o que escorre entre minhas pernas –  
é poesia líquida, é verbo feito carne,  
é o instante em que o silêncio  
enche a boca e transborda.

Sou o verso que não se repete,  
o ritmo que desaprendeu o compasso,  
a mulher que se escreve com o corpo alheio  
e se reescreve sozinha,  
no espelho embaçado do prazer.

Me leia com as pontas dos dedos.  
Me decifre com a boca.  
Me traduza com o suor.  
E quando eu me desfizer em estrofes,  
não me recolha –  
me espalhe.

Porque meu poema não quer ser lido.  
Ele quer ser sentido.  
Até o fim.  
E depois do fim.  
Sempre.




  Cléia Fialho

Nenhum comentário:

Postar um comentário

❦ OBRIGADA PELA SUA PRESENÇA
❦ É SEMPRE MUITO BOM TER VOCÊ AQUI

❦ COMENTE! EU SUPER AMO!
❦ VOLTE SEMPRE!

AFAGOS POÉTICOS EM SEU 💗
💋 DA 🐾