Não sou poema, sou o pulso que o poema não ousa.
Sou o rio que transborda sem pedir licença –
minha água não é doce, é salgada, é memória,
é o gosto que fica na boca depois do grito.
No silêncio da noite, eu me despiro das palavras.
Meus versos não se dizem – eles se contraem,
se arqueiam, se abrem como flor que aprendeu
que o sol também se beija com a língua.
Minha cadência não vem do coração,
vem do chão que treme sob meus joelhos,
vem da coxa que se fecha e se abre
como livro que ninguém quer terminar.
Deito no escuro e invento novas rimas:
o arfar que não cabe na métrica,
o gemido que estilhaça o refrão,
o instante em que o corpo esquece o nome
e vira apenas direção, apenas fenda,
apenas o ponto onde a mão encontra
a umidade da madrugada.
Minhas unhas escrevem nas costas do outro
um alfabeto que arde –
cada risco é uma letra,
cada vermelhão é uma vírgula que pede mais,
mais fundo, mais demorado,
mais dentro do dentro.
Não há rima que alcance o que meu quadril desenha.
Não há metáfora que segure
o que escorre entre minhas pernas –
é poesia líquida, é verbo feito carne,
é o instante em que o silêncio
enche a boca e transborda.
Sou o verso que não se repete,
o ritmo que desaprendeu o compasso,
a mulher que se escreve com o corpo alheio
e se reescreve sozinha,
no espelho embaçado do prazer.
Me leia com as pontas dos dedos.
Me decifre com a boca.
Me traduza com o suor.
E quando eu me desfizer em estrofes,
não me recolha –
me espalhe.
Porque meu poema não quer ser lido.
Ele quer ser sentido.
Até o fim.
E depois do fim.
Sempre.
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