Ardo antes mesmo de me tocares,
o teu olhar já me despe sem pressa,
e a minha pele responde com um tremor antigo.
Boca com boca, aprendemos a rezar sem palavras —
não, apago essa palavra,
digo antes: aprendemos a morder o silêncio.
Cada dedo teu escreve um verso na minha cintura,
desenhas mapas onde só tu sabes chegar,
e eu abro-me toda como um livro sem capa.
Deito-me à tua mercê sem pudor nem defesa,
entrego-te esse pedaço meu que ninguém alcança,
faço da tua língua o meu único idioma.
Gemo baixinho quando desces devagar,
mais alto quando o fôlego me falta,
mais rouca quando já não me pertenço.
Insiste, morde, prende-me pelos pulsos,
faz da minha coluna uma corda tensa,
puxa-me o cabelo até eu esquecer o mundo.
Molhada, rendida, faminta de ti,
peço-te mais com o corpo inteiro a tremer,
enrolo-te as pernas como quem não quer largar.
Sobes por mim como um incêndio calmo,
tomas conta da minha boca com fome antiga,
e eu já não sei se peço mais ou se imploro.
Uivo em segredo dentro da tua orelha,
vergo-me toda ao teu peso quente,
e explodo — repetidas vezes — presa ao teu ventre.
Zero é o que sobra quando acabas em mim,
zero e este tremor que ainda me percorre,
e a minha boca ainda a procurar a tua.
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