Eu não quero teu corpo de passagem,
eu quero teu corpo de morada.
Quero descobrir a geografia secreta
onde tua nuca vira vale,
onde tua espinha é cordilheira
e eu desço de boca aberta, em expedição sem volta.
Teu hálito encosta no meu e já é prelúdio.
Teu olhar me despe antes da roupa,
e quando a roupa cai,
não cai pano — cai o mundo.
Fica só você.
Só essa luz âmbar que tua pele solta
quando quer ser tocada.
Eu te toco como quem tange um instrumento antigo,
que só responde se for com devoção.
Teu peito pesa na minha mão como um fruto que escolheu cair,
teu ventre estremece quando minha boca se lembra
do mar que já morou ali.
Me abro devagar,
como quem abre um livro sagrado no meio.
Me lê com a língua,
com a testa encostada,
com a fome de quem entendeu que rezar
também é comer.
Quando você entra em mim,
o tempo para de contar.
Não há relógio, não há culpa, não há nome.
Há um pulso.
Um dentro do outro, um por causa do outro,
um implorando para nunca mais ser dois.
Eu te chamo baixo,
com aquela voz que já não é mais voz,
é febre.
E você responde me afundando mais em você,
não por força, por entrega.
Porque amar você assim
não é possuir,
é desaparecer.
E quando eu gozo —
ah, quando eu gozo embaixo da tua boca —
meu rosto vira altar,
meus olhos viram avesso,
e eu vejo, por um segundo que dura uma vida inteira,
minha alma saindo do corpo só pra nos espiar de cima
e dizer:
"Olha. É isso. Era isso que eu queria dizer com eternidade."
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