Sonhei que você tinha um aquário no peito.
Dentro, dois peixinhos dourados nadavam em círculos,
e quando você me beijava,
eles batiam no vidro.
Eu coloquei a mão e o vidro amoleceu.
Coloquei a boca e a água ficou morna.
Você gemeu e os peixinhos ficaram loucos,
nadando rápido, fazendo espuma.
Sua língua tem gosto de fruta que ainda não foi inventada.
Eu provo e esqueço meu próprio nome,
só lembro do seu,
que agora tem outro som dentro da minha boca.
Você me vira do avesso.
Literalmente.
Minha pele sai e fica pendurada na cadeira,
e você ama o que tem por baixo,
que é só luz, só mel, só pulsar.
Você me lambe como quem lê braile,
decifrando cada arrepio meu como uma carta secreta
que eu mesma nunca soube que escrevi.
Quando você me toca lá embaixo,
não é lá embaixo.
É em outro planeta.
Um planeta que só existe quando você encosta.
E eu gozo em constelações.
Eu juro que vi a Ursa Maior se desfazer
na hora que você sussurrou "vem".
Depois você dorme com a boca entreaberta,
e do seu hálito saem abelhas pequenas,
todas douradas,
todas voltando pra colmeia que é o meu ventre.
Dorme, meu surreal.
Eu te guardo aqui dentro,
nesse aquário que agora é nosso.
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