TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





terça-feira, 28 de julho de 2015

UM SUSPIRO DO COSMOS



No silêncio das noites infinitas,  
os astros dançam,  
pontos de luz em um tecido de sonhos.  
Em cada estrela,  
um suspiro do cosmos,  
sussurros de antigos segredos.

Planetas giram em suas órbitas,  
como crianças em um playground celeste,  
brincando com a gravidade,  
tecendo histórias em trilhas de poeira estelar.  
Mercúrio arpoador,  
Vênus envolta em mistério,  
uma dança de cores e sombras.

Lá, em Júpiter,  
as tempestades rugem,  
um coração oco de gás e tempo.  
Saturno, majestoso,  
carrega seus anéis,  
símbolos de beleza e distância.

E o cosmos,  
com seu manto de eternidade,  
nos observa,  
murmurando verdades 
que só o silêncio pode ouvir.  
Nós, meros viajantes,  
perdidos na vastidão,  
teimosos em buscar o que não se vê.

Ah, como o espaço nos ensina,  
a simplicidade das pequenas coisas,  
um brilho, uma rotação,  
a harmonia de tudo que existe.  
E em cada olhada para o céu,  
um convite para sonhar.




  Cléia Fialho

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O ELEVADOR



Ele entrou no elevador no oitavo andar.

Eu já estava lá dentro — a descer sozinha, depois de mais uma reunião interminável, os saltos a matarem-me e o vestido preto colado ao corpo por causa do calor de Julho. Quando as portas se abriram e o vi, senti o estômago dar aquele salto ridículo que já não devia dar aos trinta e quatro anos.
Ele. O do quinto andar. O dos olhos escuros. O que trocava comigo sorrisos demasiado longos no lobby e que uma vez, na festa de Natal, me tinha sussurrado ao ouvido uma coisa que eu nunca contei a ninguém.

— *Boa noite* — disse ele, entrando.
— *Boa noite.*

As portas fecharam. Ele carregou no botão do rés-do-chão, embora eu já o tivesse carregado. Um gesto pequeno, distraído. Depois encostou-se à parede oposta e olhou para mim.

Olhou mesmo.
Descemos um andar. Dois. E foi então que o elevador estremeceu — um solavanco seco — e parou.
A luz piscou. Voltou. Mas o elevador não se moveu.

— *Deve ser um segundo* — disse ele.

Não foi um segundo. Foi um minuto. Depois dois. Carreguei no botão de emergência e uma voz metálica avisou que já tinham sido notificados, que aguardássemos, que era um problema geral do edifício.
Vinte minutos, disseram.

Olhei para ele. Ele olhou para mim. E eu senti aquilo — aquela coisa antiga, elétrica, que já andava entre nós há meses e que nenhum dos dois nunca tinha coragem de nomear.

— *Vinte minutos* — repetiu ele, devagar.

Sorri sem querer.

Deu um passo. Depois outro. Até estar tão perto que eu sentia o cheiro do perfume dele misturado com o suor leve do fim do dia. Não me tocou logo. Ficou ali, a olhar-me a boca, com aquela paciência cruel de quem sabe que já ganhou.

— *Sabes o que eu penso desde a festa de Natal?* — sussurrou.
— *Sei.*
— *E?*
Puxei-o pela gravata.

O beijo foi imediato, faminto, sem tempo para dúvidas — sete meses de olhares acumulados desabaram na minha boca de uma só vez. Ele empurrou-me contra a parede do elevador, o espelho frio nas minhas costas, e as suas mãos subiram-me pelas coxas por baixo do vestido com uma urgência que me fez perder o fôlego.

— *Só temos vinte minutos* — sussurrei-lhe ao ouvido.
— *Chega.*

Sorriu contra o meu pescoço e mordeu-me a pele por baixo da orelha. Gemi tão baixinho que quase não me ouvi — mas ele ouviu, e riu, e mordeu outra vez, mais fundo.
As mãos dele encontraram a renda por baixo do vestido. Puxou-a para o lado — não a tirou, só a afastou, como quem não tem tempo para gentilezas — e os dedos dele encontraram-me exactamente onde eu já o esperava desde o oitavo andar.
Fechei os olhos. A cabeça caiu para trás contra o espelho.

— *Estás molhada* — disse ele, quase acusador.
— *Estou assim desde a festa de Natal.*
Riu — um riso baixo, escuro — e ajoelhou-se.

Não. Não posso descrever tudo. Só posso dizer que a boca dele me encontrou por baixo daquele vestido preto de trabalho, no chão de um elevador parado entre o sexto e o quinto andar, e que eu tive de morder o pulso para não gritar quando a primeira onda me atravessou.
Ele levantou-se com um sorriso que ainda tinha o meu gosto.
Beijou-me — e eu provei-me na boca dele, salgada, obscena, deliciosa — e depois desapertou o cinto com uma pressa que nos fez rir aos dois.

Ergueu-me. As minhas pernas envolveram-lhe a cintura. O espelho gelado contra as minhas costas, o corpo dele a queimar contra o meu à frente, e quando entrou em mim eu tive de esconder o rosto no seu ombro para não gritar o nome dele no elevador de um prédio inteiro de escritórios.
Moveu-se rápido, fundo, sem paciência. Não havia tempo para paciência. As nossas respirações misturavam-se, o espelho embaciou-se atrás de mim, e senti-o tremer contra o meu ventre a cada estocada.

— *Vem comigo* — disse-lhe. — *Agora.*

Ele veio. Eu vim. Ao mesmo tempo, mordendo-lhe o ombro por cima da camisa, com um gemido abafado que ficou preso entre nós como um segredo.
Ficámos assim um instante. Ofegantes. A tremer.
E foi então que o elevador estremeceu outra vez — e começou a descer.
Tivemos exactamente noventa segundos para nos recompormos.
Quando as portas se abriram no rés-do-chão, saímos lado a lado, arranjados, sérios, como dois desconhecidos.

Ele virou-se para mim antes de sair.
— *Amanhã tenho uma reunião no oitavo* — disse. — *Às sete.*

Sorri.
— *Que coincidência.*



  Cléia Fialho

domingo, 26 de julho de 2015

SUSSURROS NA PENUMBRA



No toque suave da brisa,  
o perfume das flores,  
um convite ao desejo,  
a dança dos corpos,  
sussurros na penumbra.  

Olhares que se encontram,  
caminhos entrelaçados,  
corações pulsando forte,  
a luz suave da tarde,  
o calor do momento.  

Lá fora, o mundo gira,  
mas aqui, somos só nós,  
perdidos em instantes,  
onde o tempo se desfaz,  
e o erotismo é arte.  

Despertar de sensações,  
texturas na pele,  
um universo secreto  
onde tudo é permitido,  
e cada beijo é uma promessa.  

Navegamos em mares  
de sonhos e esperanças,  
onde o desejo é luz,  
e o amor, uma paisagem  
desenhada em nuances.  

Na suavidade do toque,  
na entrega sincera,  
um poema que se escribe  
com as pétalas do desejo,  
numa manhã de verão.




  Cléia Fialho

sábado, 25 de julho de 2015

QUARTO 304



A porta fecha.
O trinco range como um segredo que ninguém deveria ouvir.

Não acendo a luz.
Deixo que a cidade, lá fora, faça o serviço: um néon vermelho pulsa na janela e pinta o teu ombrode sangue e de promessa.

Fico de costas por um instante.
Só o tempo de deixar cair a alça do vestido — um gesto pequeno, quase distraído, que faz o teu fôlego esquecer o caminho de casa.

Aproximo-me. Não te viras ainda.
Pouso a boca na tua nuca e sinto o teu corpo inteiro responder com um arrepio que desce, lento, até onde eu ainda não toquei.

— Devagar — dizes, sem virar o rosto.

E eu obedeço, porque a tua voz, nesse tom, é ordem e é súplica, é chave e é fechadura.

Desces os dedos pela minha espinha, vértebra a vértebra, como quem afina um instrumento antes do concerto.
O meu vestido cede, escorrega, faz um sussurro de tecido ao encontrar o chão.

— Vira-te. Viro-me.

E o néon vermelho atravessa a janela para se deitar entre os meus seios,
para descer pelo meu ventre, para acender essa sombra escura onde o meu nome ainda não foi dito, mas já está a ser pronunciado por cada centímetro da minha pele.

Empurras-me contra a parede.
(E eu, que julgava conduzir, como fui ingénua.)

A tua boca chega à minha com o peso exato de quem sabe o que quer.
Mordes-me o lábio como se assinasses um contrato em que a única cláusula é não parar.

As tuas mãos descem.
Encontram-me.
Sorris contra a minha boca, esse sorriso grande, de quem sabe que a outra já está perdida. E eu estou.

Estou perdida no cheiro do teu cabelo, no gosto salgado do teu pescoço, no som da tua respiração quando os meus dedos encontram
o lugar certo e eu inclino a cabeça para trás, oferecendo a garganta como um verso inacabado.

A cama fica a três passos. Não chegamos até ela.

O chão é frio. O tapete é áspero.
Nada disso importa quando me sento sobre ti e o néon vermelho desenha uma auréola.

Movo-me devagar.
Sabes que a pressa é para amantes pequenos.
Nós temos a paciência das mulheres que já venceram antes mesmo de começar.

E tu olhas-me.
Olhas-me enquanto ainda consigo sustentar o teu olhar, antes que o prazer me feche os olhos e me leve para longe, para esse lugar onde nem eu chego quando estou contigo.

Depois, muito depois, ficamos assim: eu, deitada sobre o teu peito, a respiração ainda à procura do compasso do mundo.

A cidade continua a pulsar na janela, vermelha, indiferente.

E tu dizes, baixinho, com a boca colada aos meus cabelos:

— Ainda não acabou.

E eu sorrio no escuro, porque sei que tens razão.





  Cléia Fialho

sexta-feira, 24 de julho de 2015

CONFISSÃO IMPURA



Confesso: penso em ti
nas horas mais impróprias.
No meio da reunião,
na fila do café,
enquanto o mundo finge
que existe algo mais urgente
que o teu zíper entreaberto
na minha memória.

Penso na tua língua.
Penso nos teus dedos.
Penso naquele gesto
— tu sabes qual —
em que reviras os olhos
e o pescoço se rende
e o teu corpo diz *sim*
antes da tua voz.

Sou uma mulher decente
em público.
Mas contigo, no escuro,
sou tudo o que a moral condena:
sou boca, sou garra, sou fome,
sou o teu nome dito baixo
como quem diz um palavrão.

E se isso é lascívia,
que seja.
Que me condenem os santos,
que me expulsem os anjos —
prefiro o teu inferno morno
ao céu de qualquer outro.




  Cléia Fialho

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A MORDIDA QUE ABRE O ABISMO



Não são palavras que traçam o destino
É o pulsar que nos faz avançar juntos
Deixando para trás o mundo e seus assuntos
Nesse abraço que sufoca e define o limite

Tua mão desce lenta pelo meu peito nu
Acordando cada fibra adormecida e tensa
O suor fala mais que qualquer discurso vazio
Enquanto o lençol se enrola
 em nossas pernas molhadas de prazer

A língua desenha mapas proibidos e quentes
Mordendo o limite entre o gozo e o grito profundo
Não há destino fora dessa cama suada e escura
Onde o tempo morre e o corpo 
resucita em espasmos selvagens

Vamos deixando tudo para trás e fora
Cada beijo um pacto de fogo e demanda
Esse abraço profundo e demasiado fino
Que nos devora até o último suspiro 
rouco e roubado de vida

Minha boca encontra teu pescoço arqueado
Mordendo a carne que pulsa e implora
Não há mais fim que nos separe.




  Cléia Fialho