Não peço permissão ao desejo –
ele me habita como rio que desconhece a foz.
Meu corpo não é tela, é labareda,
é língua que lambe o ar antes do beijo.
Sou a curva que desaprendeu a espera.
No colo, o peso do mundo se dissolve
quando minhas coxas abrem o compasso
de uma dança que só a pele conhece.
Meus dedos escrevem no dorso do outro
um alfabeto que nenhum dicionário ousa.
Cada arranhão é vírgula,
cada mordida, ponto-final que recomeça.
Respiração ofegante é minha rima preferida –
sem métrica, sem pudor, sem freio.
Meu suor é estrofe líquida,
meu gemido, refrão que não se repete
porque cada vez é a primeira.
Deslizo como maré que invade a areia
sem aviso, sem roteiro, sem piedade.
E quando o corpo do outro me encontra,
eu não sou mais mulher –
sou território, sou fenda, sou abismo,
sou a mão que guia o naufrágio.
Meu prazer não tem nome, tem gosto,
tem cheiro de aurora entre os lençóis,
tem pressa de ser lento,
tem medo de acabar –
e acaba, sim, mas deixa o eco
tremendo dentro do osso.
Sou poesia ereta,
verso que pulsa onde a luz não alcança.
Não me leia com os olhos –
me leia com a ponta dos dedos,
com a língua trêmula,
com a entrega de quem sabe
que o êxtase também é literatura.
E quando eu arder por inteiro,
não apague o incêndio.
Escreva com ele.
Me escreva com ele.
Sempre.