TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

sábado, 18 de julho de 2015

SEGREDO DO TOQUE



Luz que dança em pele exposta no segredo do toque suave,  
o sopro do desejo aflora,  
como brisa que acaricia o amanhecer.  

Sussurros de corpos entrelaçados,  
na penumbra onde os sentidos despertam em sinfonia mística,  
cada olhar um convite, 
cada gesto,  
um poema escrito em murmúrios.  

Luxúria enfeita os sonhos,  
como pétalas em flor,  
delicadas e ardentes,  
cada perfume é um testemunho do que arde em silêncio.  

Libido, 
que alimenta a chama da paixão fervente,  
teu poder é um abismo,  
onde a razão se dissolve na eternidade,  
e o instante se faz infinito.  

Em cada toque, a poesia se revela,  
nas danças que a noite sussurra,  
sensualidade é um verso,  
a vida uma estrofe,  
composta de anseios e suspiros.




  Cléia Fialho

sexta-feira, 17 de julho de 2015

AULA PARTICULAR

 



Cheguei atrasada. De propósito.

Sabia que ele estava a arrumar o estúdio — luzes baixas, o parquet a cheirar a cera, o cheiro dele já pousado no ar antes mesmo de me ver entrar. Dez semanas de aulas de tango. Dez semanas a fingir que era só isto: uma mulher a aprender a dançar.

Mas hoje era a última aula. E hoje eu não vinha para dançar.

— Chegaste tarde — disse ele, sem levantar os olhos, enrolando o cabo do gira-discos.

— Cheguei quando queria chegar.

Levantou o olhar. E aquele olhar dele — escuro, lento, o que sempre me atravessava de uma forma que a música nunca me atravessou — pousou-se-me no vestido preto colado. Deteve-se um segundo a mais no decote. Outro segundo a mais nas coxas.

— Vieste com um vestido para dançar tango?

— Vim com um vestido para o que quiseres.

Não riu. Não sorriu. Só se ergueu devagar, atravessou o estúdio, e apagou uma das duas lâmpadas. O quarto ficou em penumbra âmbar, quente, apertada.

Aproximou-se. Parou a um palmo.

— Sabes que se te tocar agora não é aula.

— Sei.

— E queres.

— Já sabes que quero. Desde a segunda aula que sabes.

Puxou-me pela cintura com uma mão só — aquele gesto seco de tango, mas sem música desta vez — e encostou-me a ele. Senti-o inteiro. Senti que também ele já estava a três semanas de não conseguir mais fingir.

A boca dele desceu-me pelo pescoço antes de tocar a minha. Um beijo lento no ombro, outro na curva da garganta, outro por baixo da orelha — e depois, só depois, subiu até à minha boca com uma paciência cruel que me fez gemer baixinho contra os seus lábios.

Beijou-me como quem termina uma dança que começou há muito.

As mãos dele encontraram-me o zíper das costas. Desceram-no devagar, milímetro a milímetro, e o vestido cedeu-me pelos ombros até me abraçar as ancas. Fiquei ali, no meio do estúdio deserto, com os seios nus, e ele afastou-se um passo só para me olhar.

— Que loucura — sussurrou.

Voltou. A boca desceu-me pelo peito e chupou-me o mamilo com uma força que me fez arquear as costas. Enterrei-lhe os dedos no cabelo. Puxei. Ele gemeu contra a minha pele e essa vibração desceu-me até ao ventre num arrepio que me fez tremer as pernas.

Levantou-me. Sentou-me em cima do piano vertical encostado à parede — o piano que ele nunca tocava, que servia só de decoração. Frio contra as minhas costas nuas. As minhas coxas caíram-lhe à volta da cintura como sempre tinham querido cair.

Empurrou-me o vestido para cima das ancas. Passou os dedos pela renda que me guardava, sem a tirar, apenas provocando, sentindo-me molhada através do tecido — e o sorriso pequeno que lhe apareceu na boca era o sorriso de quem tinha acabado de ganhar uma aposta antiga.

— Estás assim há quanto tempo? — perguntou-me contra a boca.

— Dez semanas.

Riu baixinho. Ajoelhou-se à minha frente.

E o que ele me fez em cima daquele piano com a boca — não sei se algum dia terei palavras para descrever. Puxou a renda para o lado e provou-me devagar, como quem prova algo que esperou muito tempo por provar, e eu tive de morder a mão para não gritar contra as paredes do estúdio.

A língua dele traçou-me em círculos lentos, depois rápidos, depois fundos. Uma das mãos dele subiu-me pelo ventre, encontrou-me o seio, apertou. A outra manteve-me as coxas abertas contra a madeira do piano. Eu segurava-me à tampa fechada atrás de mim, com o cabelo caído para trás, gemendo sem já me importar com nada nem ninguém.

Senti a onda a subir. Ele sentiu. Afastou-se.

— Ainda não.

Levantou-se. Ergueu-me do piano com uma facilidade que me fez rir e gemer ao mesmo tempo, virou-me contra a parede, e as minhas mãos abertas na madeira fria. Sentiu-me atrás. Levantou-me o vestido. Desapertou-se.

E entrou em mim de uma só vez — fundo, seco, sem paciência nenhuma.

Gritei. O grito saiu-me sem aviso, ecoou pelo estúdio deserto, e ele não o abafou — deixou-me gritar, quase quis que eu gritasse, e moveu-se dentro de mim com aquele ritmo antigo do tango que ele me tinha ensinado nas primeiras aulas, mas agora feito de outra coisa, feito de fome e de meses de espera.

Uma mão dele agarrou-me o cabelo, puxou-me a cabeça para trás, e a boca dele mordeu-me a nuca enquanto se enterrava mais fundo. A outra mão desceu-me entre as coxas, encontrou-me outra vez, e esfregou-me no ritmo exato em que se movia.

Vim contra a parede tremendo inteira, apertando-me à volta dele em espasmos que me tiraram o ar. Ele veio logo a seguir — dentro de mim, com um gemido rouco enterrado no meu ombro, agarrando-me as ancas com uma força que me deixou marcas para uma semana inteira.

Ficámos ali. Ofegantes. Colados. A minha testa contra a madeira, a boca dele no meu ombro, o suor a arrefecer devagar entre nós.

Beijou-me a curva do ombro nu. Um beijo estranhamente doce para o que tinha acabado de fazer.

— Ficas para outra aula? — sussurrou.

Sorri contra a parede.

— Fico para outra vida.

Ele riu baixinho. Voltou a ligar o gira-discos. E o tango — finalmente — começou a tocar.



  Cléia Fialho

quarta-feira, 15 de julho de 2015

À SOMBRA DOS SONHOS




Desejo, na brisa que passa,  
um sussurro de amantes perdidos,  
caminhos onde o sol se esvazia,  
à sombra dos sonhos benditos,  
em um olhar que nunca se apaga,  
buscando a luz nos corações feridos.  

Nas noites de lua, em segredo,  
nossos passos dançam em rimas,  
teço promessas nas estrelas,  
um desejo que nunca se exprime,  
cuspindo em versos as lendas,  
guardo em mim miles de minas.  

E quando o dia desponta,  
sinto a vida se pintar,  
em cada raio um sopro,  
um desejo que vem e vai,  
como a onda que acaricia a areia,  
o eco suave do amar.  

Nos braços do tempo, eu clamo,  
o murmúrio das vozes que num dia,  
construíram castelos em sonhos,  
toda a dor que se esvazia,  
sobre a pele um fogo que inflama,  
e a esperança, eterna e vazia.  

Se assim os desejos perduram,  
os amores nas brisas eternas,  
as memórias nos risos guardados,  
sem nunca cessar esse intento,  
pois o desejo, como um rio,  
flui e transborda em pensamento.  

E assim canto a vida, tão breve,  
as paisagens onde o amor habita,  
o desejo, em pétalas, se eleva,  
na fragilidade da lira bendita,  
um fervor que nunca se apaga,  
que este misterio sempre se repita.




  Cléia Fialho

terça-feira, 14 de julho de 2015

SOMOS CARNE QUE SE DEVORA




O prazer é chama que nos consome,  
arde na pele, invade o íntimo,  
um canto secreto que se abre em vertigem.  

segunda-feira, 13 de julho de 2015

ALFABETO DO DESEJO



Quero tua boca faminta, 
cavando o abismo dos meus segredos mais proibidos,
degustando a intimidade que pulsa apenas para te receber.

Deixa que este fogo nos devore sem clemência,
numa cadência de atrito e suor, 
um ritmo lento que incendeia a pele,
e nos mergulha na selvageria pura da carne.

Cada estremecer que me arranca o fôlego é um verso gravado em espasmos,
uma métrica de prazer que se escreve na tua posse.

Cada onda líquida que sobe, 
que inunda, que transborda,
é a nossa linguagem absoluta, 
o idioma profano e urgente do gozo,
que dispensa o verbo e se faz sentir 
em cada milímetro do nosso delírio.




  Cléia Fialho

domingo, 12 de julho de 2015

UM LABIRINTO DE ENCANTOS



No calor suave da tarde,  
um sussurro de desejos se ergue,  
entre sombras da luz e da pele,  
corações aceleram, 
dançam como chamas.

A brisa lê os segredos,  
tosse do amor na flor do instante.  
Cada toque é um convite,  
um poema roubado à existência.

E como o vinho,  
o olhar que se cruzam,  
embriagam a alma,  
a volúpia resplandece na brenha do ser.

Doce é o silêncio que segue,  
entre sussurros e risos,  
o tempo se dissolve,  
um labirinto de encantos.

Harmonias de corpos,  
a sinfonia da vida,  
cordas vibrantes em melodias,  
onde o desejo é o maestro do incerto.  

Ao cair da noite,  
as estrelas são testemunhas,  
de um amor que não se apaga,  
nem se esquece, 
em eternidade.




  Cléia Fialho

sábado, 11 de julho de 2015

TEU CORPO NA MINHA BOCA



O prazer é carne acesa,
é a nossa ode mais estreita aquela que cabe apenas
no vão entre o teu quadril e o meu grito.
Não se declama – geme-se,
não se escreve – escorre-se,
não se guarda – devora-se.

Para me sentires úmida,
me toques com a ponta dos dedos.
Morde-me, prende-me o olhar,
enrola a minha língua na tua até o ar faltar e o chão sumir.
Molha-te em mim como quem bebe de uma fruta que não seca,

Como quem afunda a cara na minha entreperna e lá fica,
até os teus lábios saberem escorrer ao teu tremor.
Entrega-te ao desejo como quem entrega a própria vida
 – ao ápice do gozo.
Quebra o ritmo, 
atropela a calma,
entra em mim com a fome de quem não come há dias
com o suor que te pinga do peito,
com os dedos que me abrem e me reconhecem às escuras.

E juntos, alcançaremos o êxtase – nós o faremos acontecer,
como quem provoca um incêndio.
Será o nosso corpo a arder
Será o teu corpo trêmulo – no meio do meu arfar.
Será a minha perna treme – contra a tua coxa molhada.

Será o instante em que o prazer nos deixa mudos,
mas os nossos quadris continuam – a falar a língua obscena
– a da carne que se oferece,
a do gemido que não pede licença,
 – a do leite que escorre
e não tem pressa de secar.




  Cléia Fialho