TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

domingo, 2 de agosto de 2015

LUAR DE DESEJOS



Caminhamos juntos na sombra do luar,
o toque de tua mão, poesia viva,
com versos sutilmente entrelaçados,
onde o tempo se dissolve como névoa.

A luz dos astros cobre nossos corpos
como uma manta suave de desejos.
Nossos lábios encontram mistérios,
a sinfonia do amor a nos guiar.

Teu olhar acende a chama do silêncio,
e minha pele desperta ao teu calor.
No compasso lento de cada abraço,
floresce o doce incêndio do amor.

Teu perfume invade meus sentidos,
feito brisa morna sobre a madrugada.
Cada beijo prolonga o infinito,
em uma entrega calma e apaixonada.

O coração esquece toda distância,
quando teu corpo encontra o meu sem pressa.
E a noite, cúmplice de nossos sonhos,
guarda em segredo tudo o que confessa.




  Cléia Fialho

sábado, 1 de agosto de 2015

NOITE DE TEMPESTADE



O trovão chegou antes da chuva.

Estava sozinha em casa quando as luzes piscaram uma vez, duas, e apagaram-se de vez. Andei até à janela do quarto às apalpadelas. Lá fora, o mundo era uma coisa preta e violenta — árvores curvadas ao vento, faixas de chuva a atravessarem os postes de luz. Um relâmpago rasgou o céu ao meio e mostrou tudo, por uma fracção de segundo, com uma nitidez insuportável.
Foi nesse instante que a campainha tocou.
O meu coração, antes da cabeça, já sabia. Já se lembrava de que ele tinha dito, três semanas atrás, com aquela voz baixa que sempre me despia mais do que as mãos:

— *Se um dia houver uma tempestade a sério, eu apareço.*

Eu tinha rido. Ele não.
Desci as escadas com uma vela na mão e abri a porta.
Estava lá. Encharcado dos pés à cabeça, o cabelo colado à testa, os olhos escuros a brilharem como se estivessem a beber a luz da vela. A camisa colava-se-lhe ao peito, e eu vi o desenho do seu corpo por baixo — o mesmo corpo que já tinha estado sobre o meu, dentro do meu, tantas vezes que a memória do meu corpo o conhecia melhor do que a memória da minha cabeça.

Não disse nada. Só me olhou.
— *Entra* — sussurrei.

Ele entrou, fechou a porta com o pé, e antes que eu conseguisse dar mais um passo, a sua mão já tinha encontrado a minha nuca e a sua boca já tinha encontrado a minha.
Beijou-me como quem chega a casa depois de uma guerra.
O beijo tinha sabor a chuva, a frio, a fome antiga. A vela caiu-me da mão e rolou pelo chão, apagando-se. Outro relâmpago acendeu o corredor e eu vi-lhe o rosto iluminado a azul — os olhos fechados, as pestanas molhadas, a mandíbula tensa.

— *Estás gelado* — sussurrei contra os seus lábios.
— *Aquece-me.*

Puxei-o pela camisa molhada, escadas acima, aos tropeções. A casa toda respirava com a tempestade — as vidraças tremiam, o vento assobiava pelas frestas como um animal a querer entrar. E nós subíamos, boca contra boca, com aquela urgência antiga que só as noites assim conseguem convocar.
No quarto, comecei a despi-lo. Os botões resistiam — arranquei os últimos com um gesto impaciente que o fez rir contra o meu ouvido. A camisa caiu com um baque molhado. Depois o cinto. Depois as calças.
E quando ficou nu diante de mim, à luz intermitente dos relâmpagos, parei um instante. Só para o olhar.
Deu um passo em frente. Outro. Até me ter contra a parede.

— *Tive saudades* — disse.
Não perguntei do quê. Sabia.

A boca dele desceu-me pelo pescoço, mordeu-me a clavícula, encontrou-me o seio e demorou-se ali, como se estivesse a reaprender-me. Eu enterrei-lhe os dedos no cabelo molhado e arqueei as costas contra o gesso frio, gemendo baixinho — e ele engoliu o gemido com um sorriso.

Um trovão rebentou tão perto que a casa toda estremeceu.
— *A tempestade está com ciúmes* — sussurrou contra a minha pele.
— *Que tenha.*

Foi aí que ele me pegou ao colo. Não foi um gesto romântico — foi um gesto de fome. Prendeu-me as pernas à volta da sua cintura e caminhou até à cama sem tirar a boca da minha.
Caímos juntos, um emaranhado de peles a procurarem-se. Ele beijou-me toda — a boca, o pescoço, os seios, o ventre — e ainda mais devagar, ainda mais fundo, encontrou-me com a boca no lugar onde eu já o esperava desde o primeiro trovão da noite.
Perdi-me no lençol, no escuro, no cheiro dele misturado com o cheiro da chuva. Um relâmpago iluminou o quarto e eu vi-o entre as minhas pernas — olhos fechados, concentrado, como quem reza. Essa imagem ficou-me presa por trás das pálpebras.

— *Vem cá* — pedi. — *Preciso de ti.*

Subiu devagar, arrastando a boca pelo meu corpo como uma assinatura. Beijou-me outra vez — beijei-me com o meu próprio gosto na boca dele — e entrou em mim com aquela lentidão que me desarma.

— *Olha para mim.*

Olhei. Os olhos dele, ali, tão perto, tão dentro. Um relâmpago iluminou-lhe o rosto e eu vi tudo — o desejo, a saudade, essa coisa antiga que nos prende há tanto tempo.

Começou a mover-se. Devagar primeiro. Depois fundo, exacto, aquele ritmo que só existe entre duas pessoas que já se conhecem de cor. As minhas mãos agarraram-lhe as costas, senti a pele dele arrepiar-se, e ele gemeu junto ao meu ouvido — um gemido rouco, contido, que me fez apertá-lo ainda mais entre as coxas.
A cadência foi crescendo com a tempestade.
A chuva batia mais forte na janela. O vento uivava. E nós, dentro do quarto, éramos outra tempestade — mais quente, mais húmida, mais desesperada.
Senti a onda a chegar. Vinha das coxas, subia pelo ventre, apertava-me a garganta.

— *Vem* — disse-me. — *Vem comigo.*
E eu vim.

Vim com um trovão a estoirar por cima do telhado, com um relâmpago a acender o quarto inteiro, com o corpo dele a tremer sobre o meu no exacto mesmo instante. Fiquei sem ar. Fiquei sem nome. Fiquei sem nada, excepto ele.
Depois foi o silêncio nosso. A respiração a acalmar. As mãos a descobrirem ternuras mais lentas.
Ele deitou a cabeça no meu peito. Eu passei-lhe os dedos pelo cabelo, que já estava a secar.

— *Ainda bem que houve tempestade* — sussurrei.
Riu baixinho e beijou-me a pele sobre o coração.

— *Ia aparecer de qualquer forma* — disse. — *A tempestade foi só a desculpa.*

Ficámos assim muito tempo. A ouvir a chuva. A sentir o cheiro molhado que entrava pela janela aberta que nenhum de nós teve coragem de ir fechar.

Adormecemos abraçados.
E quando acordei, de manhã, ele dormia ao meu lado, o braço atravessado sobre a minha cintura, a respiração calma.

Sorri no escuro do lençol.
E pensei, sem dizer em voz alta, que da próxima vez não ia esperar pela tempestade.

Da próxima vez, era eu que a fazia.




  Cléia Fialho

sexta-feira, 31 de julho de 2015

SUSSURROS QUE INCENDEIAM A MADRUGADA



Despertam sussurros a sonhar,
como se o mundo ao redor parasse,
deixando apenas o nosso amor a pulsar.

O desejo delicado de um toque,
um olhar que explode em mil estrelas,
romance embriagado de manhãs sem fim.

Teus lábios passeiam em calma lenta,
acendendo o silêncio do meu peito.
Teu perfume veste a madrugada,
e cada instante encontra o seu leito.

Nossos corpos conversam sem palavras,
na linguagem secreta da paixão.
O tempo se dissolve entre carícias,
enquanto o desejo guia o coração.

A lua contempla a entrega serena,
bordando prata sobre a nossa pele.
E a noite, cúmplice dos sentimentos,
guarda em seu véu o amor que nos envolve.




  Cléia Fialho

quarta-feira, 29 de julho de 2015

SINOPSE DA ALMA EM CHAMA



Nas brumas suaves do desejo,  
tato em pele,  
suspiros e risos,  
um jogo de olhares,  
onde o tempo se despedaça,  
dançando entre nós,  
como sombras ao luar.  

Teus lábios contam segredos,  
palavras sussurradas,  
neste universo de encantos.  
A cada toque, uma história,  
de luz e sombra,  
desnudando a alma,  
pintando o ar de cores vibrantes.  

Os corpos em harmonia,  
uma sinfonia sem notas,  
nós que nos entregamos,  
trocando promessas,  
onde a carne e o espírito  
se encontram,  
e o sutil se torna eterno.  

Entre sussurros de brisa  
e toques de vontade,  
abrimos portas para o infinito,  
onde tudo é possível,  
a liberdade do amor,  
refletida em cada nuance  
do prazer que nos envolve.  

Aqui, neste instante,  
a vida se transforma,  
cada respiração, um verso  
na poesia do corpo,  
um hino à beleza,  
donde cada gesto é arte  
e a paixão,  
um delicado fio de luz.




  Cléia Fialho

terça-feira, 28 de julho de 2015

UM SUSPIRO DO COSMOS



No silêncio das noites infinitas,  
os astros dançam,  
pontos de luz em um tecido de sonhos.  
Em cada estrela,  
um suspiro do cosmos,  
sussurros de antigos segredos.

Planetas giram em suas órbitas,  
como crianças em um playground celeste,  
brincando com a gravidade,  
tecendo histórias em trilhas de poeira estelar.  
Mercúrio arpoador,  
Vênus envolta em mistério,  
uma dança de cores e sombras.

Lá, em Júpiter,  
as tempestades rugem,  
um coração oco de gás e tempo.  
Saturno, majestoso,  
carrega seus anéis,  
símbolos de beleza e distância.

E o cosmos,  
com seu manto de eternidade,  
nos observa,  
murmurando verdades 
que só o silêncio pode ouvir.  
Nós, meros viajantes,  
perdidos na vastidão,  
teimosos em buscar o que não se vê.

Ah, como o espaço nos ensina,  
a simplicidade das pequenas coisas,  
um brilho, uma rotação,  
a harmonia de tudo que existe.  
E em cada olhada para o céu,  
um convite para sonhar.




  Cléia Fialho

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O ELEVADOR



Ele entrou no elevador no oitavo andar.

Eu já estava lá dentro — a descer sozinha, depois de mais uma reunião interminável, os saltos a matarem-me e o vestido preto colado ao corpo por causa do calor de Julho. Quando as portas se abriram e o vi, senti o estômago dar aquele salto ridículo que já não devia dar aos trinta e quatro anos.
Ele. O do quinto andar. O dos olhos escuros. O que trocava comigo sorrisos demasiado longos no lobby e que uma vez, na festa de Natal, me tinha sussurrado ao ouvido uma coisa que eu nunca contei a ninguém.

— *Boa noite* — disse ele, entrando.
— *Boa noite.*

As portas fecharam. Ele carregou no botão do rés-do-chão, embora eu já o tivesse carregado. Um gesto pequeno, distraído. Depois encostou-se à parede oposta e olhou para mim.

Olhou mesmo.
Descemos um andar. Dois. E foi então que o elevador estremeceu — um solavanco seco — e parou.
A luz piscou. Voltou. Mas o elevador não se moveu.

— *Deve ser um segundo* — disse ele.

Não foi um segundo. Foi um minuto. Depois dois. Carreguei no botão de emergência e uma voz metálica avisou que já tinham sido notificados, que aguardássemos, que era um problema geral do edifício.
Vinte minutos, disseram.

Olhei para ele. Ele olhou para mim. E eu senti aquilo — aquela coisa antiga, elétrica, que já andava entre nós há meses e que nenhum dos dois nunca tinha coragem de nomear.

— *Vinte minutos* — repetiu ele, devagar.

Sorri sem querer.

Deu um passo. Depois outro. Até estar tão perto que eu sentia o cheiro do perfume dele misturado com o suor leve do fim do dia. Não me tocou logo. Ficou ali, a olhar-me a boca, com aquela paciência cruel de quem sabe que já ganhou.

— *Sabes o que eu penso desde a festa de Natal?* — sussurrou.
— *Sei.*
— *E?*
Puxei-o pela gravata.

O beijo foi imediato, faminto, sem tempo para dúvidas — sete meses de olhares acumulados desabaram na minha boca de uma só vez. Ele empurrou-me contra a parede do elevador, o espelho frio nas minhas costas, e as suas mãos subiram-me pelas coxas por baixo do vestido com uma urgência que me fez perder o fôlego.

— *Só temos vinte minutos* — sussurrei-lhe ao ouvido.
— *Chega.*

Sorriu contra o meu pescoço e mordeu-me a pele por baixo da orelha. Gemi tão baixinho que quase não me ouvi — mas ele ouviu, e riu, e mordeu outra vez, mais fundo.
As mãos dele encontraram a renda por baixo do vestido. Puxou-a para o lado — não a tirou, só a afastou, como quem não tem tempo para gentilezas — e os dedos dele encontraram-me exactamente onde eu já o esperava desde o oitavo andar.
Fechei os olhos. A cabeça caiu para trás contra o espelho.

— *Estás molhada* — disse ele, quase acusador.
— *Estou assim desde a festa de Natal.*
Riu — um riso baixo, escuro — e ajoelhou-se.

Não. Não posso descrever tudo. Só posso dizer que a boca dele me encontrou por baixo daquele vestido preto de trabalho, no chão de um elevador parado entre o sexto e o quinto andar, e que eu tive de morder o pulso para não gritar quando a primeira onda me atravessou.
Ele levantou-se com um sorriso que ainda tinha o meu gosto.
Beijou-me — e eu provei-me na boca dele, salgada, obscena, deliciosa — e depois desapertou o cinto com uma pressa que nos fez rir aos dois.

Ergueu-me. As minhas pernas envolveram-lhe a cintura. O espelho gelado contra as minhas costas, o corpo dele a queimar contra o meu à frente, e quando entrou em mim eu tive de esconder o rosto no seu ombro para não gritar o nome dele no elevador de um prédio inteiro de escritórios.
Moveu-se rápido, fundo, sem paciência. Não havia tempo para paciência. As nossas respirações misturavam-se, o espelho embaciou-se atrás de mim, e senti-o tremer contra o meu ventre a cada estocada.

— *Vem comigo* — disse-lhe. — *Agora.*

Ele veio. Eu vim. Ao mesmo tempo, mordendo-lhe o ombro por cima da camisa, com um gemido abafado que ficou preso entre nós como um segredo.
Ficámos assim um instante. Ofegantes. A tremer.
E foi então que o elevador estremeceu outra vez — e começou a descer.
Tivemos exactamente noventa segundos para nos recompormos.
Quando as portas se abriram no rés-do-chão, saímos lado a lado, arranjados, sérios, como dois desconhecidos.

Ele virou-se para mim antes de sair.
— *Amanhã tenho uma reunião no oitavo* — disse. — *Às sete.*

Sorri.
— *Que coincidência.*



  Cléia Fialho

domingo, 26 de julho de 2015

SUSSURROS NA PENUMBRA



No toque suave da brisa,  
o perfume das flores,  
um convite ao desejo,  
a dança dos corpos,  
sussurros na penumbra.  

Olhares que se encontram,  
caminhos entrelaçados,  
corações pulsando forte,  
a luz suave da tarde,  
o calor do momento.  

Lá fora, o mundo gira,  
mas aqui, somos só nós,  
perdidos em instantes,  
onde o tempo se desfaz,  
e o erotismo é arte.  

Despertar de sensações,  
texturas na pele,  
um universo secreto  
onde tudo é permitido,  
e cada beijo é uma promessa.  

Navegamos em mares  
de sonhos e esperanças,  
onde o desejo é luz,  
e o amor, uma paisagem  
desenhada em nuances.  

Na suavidade do toque,  
na entrega sincera,  
um poema que se escribe  
com as pétalas do desejo,  
numa manhã de verão.




  Cléia Fialho