Não peço calma, peço o incêndio que sobra
quando tuas mãos desaprendem o mapa do meu corpo
e eu sou só esse rio que transborda
onde teu sopro é o único remo.
Colada à tua boca a minha desordem —
não como renda, mas como fome que rasga.
O meu vasto querer não cabe em norma,
é bicho que desaba e ainda galga.
Te examino em cada vírgula suspensa,
como quem lê um mito às avessas:
despindo a fábula, provando a densa
umidade que te escorre das promessas.
O incompossível se fazendo ordem
enquanto a noite nos desfaz os ossos:
eu, que fui calma, viro torre que tomba
no teu peito onde ecoam meus destroços.
Colada à tua boca, mas descomedida —
alfabeto que morde o próprio canto,
dança que não ensaia a despedida,
vertigem que se planta em cada pranto.
Árdua, sim, porque o gozo é pedreira,
lapidação de luz no escuro bruto.
Construtor de ilusões, tua fronteira
é a única fronte que me deixa em luto
de tanto prazer — e eu, operária
de um céu que inventas só para me perder.
Examino-te sôfrega: cada fenda,
cada silêncio que te faz mais homem,
cada respiro que em mim se estilhaça
e reinventa o prazer que me tomam.
Como se fosses morrer colado à minha boca,
eu te demoro inteiro, quase louca,
porque o instante é a pátria do ausente.
Como se fosse nascer e teu suor
fosse o cordão que me prende à vida,
eu invento de novo a nossa cor
na tela úmida, quente, comprida
do lençol onde a lua nos espreita
e desaba em leite sobre a carne eleita.
E tu fosses o dia magnânimo,
sol que não queima, mas desabotoa
o vestido de cinzas que me habita,
eu te sorvo extremada à luz do amanhecer:
cada aurora é um gozo que me grita,
cada raio, um dedo a percorrer
a geografia exacta do teu ser.
Não há mapa, há trama, há laço, há nó
que desfaço com a língua e recomponho
até que o tempo perca o seu relógio
e eu seja apenas esse espaço em sonho
onde teu nome arde e se refaz —
desordem feita altar, feita voragem,
feita mulher que não pede outra vez
senão a de perder-te na linguagem.
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