TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

terça-feira, 6 de junho de 2023

COLADA À TUA BOCA




Não peço calma, peço o incêndio que sobra  
quando tuas mãos desaprendem o mapa do meu corpo  
e eu sou só esse rio que transborda  
onde teu sopro é o único remo.

Colada à tua boca a minha desordem —  
não como renda, mas como fome que rasga.  
O meu vasto querer não cabe em norma,  
é bicho que desaba e ainda galga.

Te examino em cada vírgula suspensa,  
como quem lê um mito às avessas:  
despindo a fábula, provando a densa  
umidade que te escorre das promessas.

O incompossível se fazendo ordem  
enquanto a noite nos desfaz os ossos:  
eu, que fui calma, viro torre que tomba  
no teu peito onde ecoam meus destroços.

Colada à tua boca, mas descomedida —  
alfabeto que morde o próprio canto,  
dança que não ensaia a despedida,  
vertigem que se planta em cada pranto.

Árdua, sim, porque o gozo é pedreira,  
lapidação de luz no escuro bruto.  
Construtor de ilusões, tua fronteira  
é a única fronte que me deixa em luto  
de tanto prazer — e eu, operária  
de um céu que inventas só para me perder.

Examino-te sôfrega: cada fenda,  
cada silêncio que te faz mais homem,  
cada respiro que em mim se estilhaça  
e reinventa o prazer que me tomam.

Como se fosses morrer colado à minha boca,   
eu te demoro inteiro, quase louca,  
porque o instante é a pátria do ausente.

Como se fosse nascer e teu suor  
fosse o cordão que me prende à vida,  
eu invento de novo a nossa cor  
na tela úmida, quente, comprida  
do lençol onde a lua nos espreita  
e desaba em leite sobre a carne eleita.

E tu fosses o dia magnânimo,  
sol que não queima, mas desabotoa  
o vestido de cinzas que me habita,  
eu te sorvo extremada à luz do amanhecer:  
cada aurora é um gozo que me grita,  
cada raio, um dedo a percorrer  
a geografia exacta do teu ser.

Não há mapa, há trama, há laço, há nó  
que desfaço com a língua e recomponho  
até que o tempo perca o seu relógio  
e eu seja apenas esse espaço em sonho  
onde teu nome arde e se refaz —  
desordem feita altar, feita voragem,  
feita mulher que não pede outra vez  
senão a de perder-te na linguagem.




  Cléia Fialho

segunda-feira, 5 de junho de 2023

LIVRO DO MEU CORPO




Me dá tua vida que eu escrevo em ti,
se solta, se liberta, sem tabu,
aqui nessa cama não tem pecado,
aqui tua boca pode tudo.

Meu palco é minha pele acesa,
meu perfume te deixa de joelhos,
meu calor te aquece inteiro,
meu mel te deixa de joelhos.

Eu te guio, eu te prendo, eu te solto,
eu te beijo onde tu arrepias,
eu te mordo onde tu me pedes,
eu te marco onde tu me vicias.

Quero teus beijos ardentes repetidos,
teu corpo no meu em união,
teus sentidos despertos nos meus,
teu gemido na minha devoção.

Minhas carícias são rimas entrelaçadas,
minha luxúria é sem receio,
meu amor é celebrado gozando,
meu êxtase é pleno, no meio.

Vem ser meu livro, vem ser meu verso,
vem beber do que brota em mim,
que eu te alimento de prazer,
e tu me alimenta até o fim.




  Cléia Fialho

domingo, 4 de junho de 2023

TEUS PÉS NOS MEUS LÁBIOS




Beijo teus pés como quem pede licença,
subo devagar pelo mapa da tua pele,
me demoro no teu ventre morno,
me perco no contorno dos teus seios.

Tua boca me chama e eu vou,
apaixonada, inteira, sem pressa,
deslizo as mãos com destino certo,
e estaciono onde teu corpo me quer.

Sinto tua respiração mudar de ritmo,
teu corpo responde quando eu toco,
teu olhar acende e me prende,
és maré cheia quando me ofereces.

Me fazes tua, me fazes vassala e rainha,
invades minhas profundezas com ternura,
me conquistas sem força, só com desejo,
e eu grito teu nome quando o prazer me inunda.




  Cléia Fialho

sábado, 3 de junho de 2023

A DONA DA FLOR MAIS LINDA




Quero teu rosto guardado no meu verso,
não em poema preso, em desejo solto,
quero tua pele de açucena acesa,
escrita em letras garrafais no meu corpo.

Quero tua boca com muito gosto,
traçar teu nome onde ninguém vê,
quero ser dona da flor dos prados,
e te colher inteira pra mim.

Quero versos perfumados de outono,
soltos nos teus ombros, nos teus ais,
quero pássaros com ciúme da gente,
quando minha pena te desperta e cai.

Quero versos ritmados na tua nuca,
suspiros que se abrem quando toco,
quero o estro inteiro entre meus lábios,
e me perder no teu gosto louco.




  Cléia Fialho

sexta-feira, 2 de junho de 2023

OÁSIS NA TUA BOCA




Deixa teu gosto suave na minha boca,
me toca como quem já sabe o segredo,
quero teu céu inteiro na minha língua,
esse prazer que gira leve como ave.

Desperta em mim o cálice e o mel,
em beijos que ascendem sem pressa,
desalinha meus sentidos todos,
quando tua mão acha o caminho.

Quero desbravar tua alma nua,
em viagem sem mapa, só pele e poro,
para além da miragem, teu corpo,
me fazendo oásis que não tem fim.

E que o tempo não te arranque de mim,
nessa ânsia minha que é tempestade,
me prende, me bebe, me inunda,
que eu quero ser tua eternidade.




  Cléia Fialho

quinta-feira, 1 de junho de 2023

ENTRE MEUS QUADRIL, O RITUAL DO FOGO




Não peço permissão ao desejo –  
ele me habita como rio que desconhece a foz.  
Meu corpo não é tela, é labareda,  
é língua que lambe o ar antes do beijo.

Sou a curva que desaprendeu a espera.  
No colo, o peso do mundo se dissolve  
quando minhas coxas abrem o compasso  
de uma dança que só a pele conhece.

Meus dedos escrevem no dorso do outro  
um alfabeto que nenhum dicionário ousa.  
Cada arranhão é vírgula,  
cada mordida, ponto-final que recomeça.

Respiração ofegante é minha rima preferida –  
sem métrica, sem pudor, sem freio.  
Meu suor é estrofe líquida,  
meu gemido, refrão que não se repete  
porque cada vez é a primeira.

Deslizo como maré que invade a areia  
sem aviso, sem roteiro, sem piedade.  
E quando o corpo do outro me encontra,  
eu não sou mais mulher –  
sou território, sou fenda, sou abismo,  
sou a mão que guia o naufrágio.

Meu prazer não tem nome, tem gosto,  
tem cheiro de aurora entre os lençóis,  
tem pressa de ser lento,  
tem medo de acabar –  
e acaba, sim, mas deixa o eco  
tremendo dentro do osso.

Sou poesia ereta,  
verso que pulsa onde a luz não alcança.  
Não me leia com os olhos –  
me leia com a ponta dos dedos,  
com a língua trêmula,  
com a entrega de quem sabe  
que o êxtase também é literatura.

E quando eu arder por inteiro,  
não apague o incêndio.  
Escreva com ele.  
Me escreva com ele.  
Sempre.




  Cléia Fialho

quarta-feira, 31 de maio de 2023

CONTINUA EM MIM




Continua, meu doce,
não para agora.

Cada suspiro teu
me leva um passo além de mim,
onde as palavras já não alcançam,
só o corpo entende.

O tempo se desfaz
quando tua boca me encontra,
o mundo vira bruma
e só existe o teu cheiro na minha pele.

Eu, mulher inteira,
me abro em silêncio,
força mansa e faminta
que te quer sem pressa e sem fim.

Tua mão desvenda meu segredo,
teu olhar escreve em mim,
e eu danço nesse teu ritmo ousado,
gemendo baixo o teu nome.

Me encontra de novo,
mais fundo, mais perto,
nesse universo que é só nosso,
onde meu coração bate em ti.

Continua,
me ama assim,
nesse espaço sutil entre um beijo e outro,
onde o infinito cabe na nossa cama.




  Cléia Fialho

terça-feira, 30 de maio de 2023

NO JARDIM QUENTE DO MEU CORPO



No jardim do meu coração  
floresce um desejo vermelho  
como rosa que se abre sob o sol.  

Teu sorriso aquece mais do que a alma…  
ele desce pela minha pele  
e faz os seios arderem de vontade.  

Tua voz é melodia  
que vibra entre as minhas coxas,  
acalma e, ao mesmo tempo,  
acende o fogo lento  
que já escorre por dentro.  

Em teus olhos vejo um universo  
onde me perco nua,  
sem pressa,  
sem pudor,  
só o corpo inteiro oferecido  
ao teu olhar faminto.  

Teu toque é brisa de verão  
que sobe pelas costas,  
desce pela barriga  
e se demora no lugar  
onde eu mais tremo.  

Contigo encontrei meu terreno eterno:  
a cama, a pele, o suor,  
o gemido baixo  
que vira canção  
quando nossas almas  
e nossos corpos  
dançam juntos.  

Ao longo dos dias,  
das noites,  
dos anos sem fim…  
eu te quero assim:  
dentro de mim,  
molhada de amor e de prazer,  
até o último raiar  
do nosso desejo.




  Cléia Fialho