TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia

quarta-feira, 5 de julho de 2023

A PAIXÃO SE DERRAMA



Cada palavra, um afago, uma carícia
No silêncio, ecoa as nossas delícias
Palavras são versos, enlaçados na pele

Num gemido sufocado, que o amor revele
No êxtase da noite, em harmonia em cetim
A paixão se derrama, como um doce jardim

Sussurra baixinho, segredos latejantes

Num versejar sensual, entre dois amantes.




  Cléia Fialho

terça-feira, 4 de julho de 2023

HÁ BELEZA NO ABISMO



Mas às vezes,
na loucura, encontramos a arte
A criatividade que brota
das sombras mais à parte.

Como pinceladas caóticas
em um quadro vazio
Na loucura, a alma encontra
um sussurro sombrio.

E entre corredores frios
de espelhos estilhaçados
nascem versos silenciosos
por fantasmas inspirados.


A razão perde as correntes
que prendiam o coração
E os delírios se transformam
em estrelas da criação.

Há beleza no abismo
que o mundo teme enxergar
Nos fragmentos da memória
que insistem em murmurar.


Pois a mente em tempestade
mesmo ferida e sem calma
faz da dor uma linguagem
gravada no fundo da alma.





  Cléia Fialho

segunda-feira, 3 de julho de 2023

MINHAS ANCAS DITAM O RITMO



Então vem de uma vez, deixa de lado esse ar de santo,
Quero teu corpo inteiro rendido na minha vontade.
Teu beijo é lâmina doce, meu único encanto,
Me rasgando por dentro onde o desejo invade.

Vou te amar como quem rasga a própria noite,
Como quem não quer amanhã, só quer o agora.
O encontro dos nossos corpos será açoite,
Fazendo do nosso inferno a melhor hora.

Vou montar em ti e domar tua força de fera,
Minhas ancas ditam o ritmo, sem piedade.
Nossa pele estala nessa marcha sincera,
E cada teu suspiro é pura tempestade.

Minhas mãos te provocam, te prendem, te guiam,
Minha boca no teu peito é marca que acalma.
Teus dedos nos meus cabelos se prendem e viciam
No ritmo bruto que arranca a nossa alma.

Quero te sentir tremer até os olhos revirados,
Na única prece que eu preciso escutar.
Teu corpo pulsando nos meus beijos molhados
É o delírio que me faz delirar.

Teu desejo delira sobre a minha pele acesa,
Teu corpo se entrega, se abre.
Nosso gemido, selvagem, sem defesa,
É a única verdade que no mundo ainda cabe.




  Cléia Fialho

domingo, 2 de julho de 2023

MEU CANTO EM TI




Não quero herdar versos de ninguém —  
quero inventar o som que te despe  
no papel, no ar, no entre-nós também,  
onde a palavra é carne e o verso, pele.  

Quero traçar teu rosto com a língua,  
não com pena emprestada de outro século:  
cada linha que eu abro é uma língua  
que lambe o teu perfil em círculo.  

Tua pele não é campo, é mar aberto,  
e eu sou a onda que escolheu a praia,  
não para possuir, mas para, de perto,  
inventar um naufrágio que não saia.  

Quero o cheiro do outono em tuas costas,  
mas não o outono dos livros — o teu,  
o que cai das tuas mãos quando me soltas  
e me recolhes no que é meu.  

Os pássaros que olham não têm ciúmes:  
são testemunhas do que eu crio agora  
— um poema que não usa penas nem plumas,  
mas o ritmo da tua respiração que demora.  

E quando o verso enfim se desenrolar,  
não serei dona, nem flor, nem prado:  
serei o vento que te fez parar  
para escutar o teu próprio lado.  




  Cléia Fialho

sábado, 1 de julho de 2023

sexta-feira, 30 de junho de 2023

DELÍRIO DA PAIXÃO




Você é a minha perdição

Me fazendo o controle perder
Me levando ao delírio da paixão

Me mostrando as veredas do prazer

Não há nada de errado em te amar
E em sentir o seu toque sedutor

Pois no teu colo estou a encontrar

O ápice da flama e do amor.




  Cléia Fialho

quinta-feira, 29 de junho de 2023

O PRAZER SE AGIGANTA




Não sou poema, sou o pulso que o poema não ousa.  
Sou o rio que transborda sem pedir licença –  
minha água não é doce, é salgada, é memória,  
é o gosto que fica na boca depois do grito.

No silêncio da noite, eu me despiro das palavras.  
Meus versos não se dizem – eles se contraem,  
se arqueiam, se abrem como flor que aprendeu  
que o sol também se beija com a língua.

Minha cadência não vem do coração,  
vem do chão que treme sob meus joelhos,  
vem da coxa que se fecha e se abre  
como livro que ninguém quer terminar.

Deito no escuro e invento novas rimas:  
o arfar que não cabe na métrica,  
o gemido que estilhaça o refrão,  
o instante em que o corpo esquece o nome  
e vira apenas direção, apenas fenda,  
apenas o ponto onde a mão encontra  
a umidade da madrugada.

Minhas unhas escrevem nas costas do outro  
um alfabeto que arde –  
cada risco é uma letra,  
cada vermelhão é uma vírgula que pede mais,  
mais fundo, mais demorado,  
mais dentro do dentro.

Não há rima que alcance o que meu quadril desenha.  
Não há metáfora que segure  
o que escorre entre minhas pernas –  
é poesia líquida, é verbo feito carne,  
é o instante em que o silêncio  
enche a boca e transborda.

Sou o verso que não se repete,  
o ritmo que desaprendeu o compasso,  
a mulher que se escreve com o corpo alheio  
e se reescreve sozinha,  
no espelho embaçado do prazer.

Me leia com as pontas dos dedos.  
Me decifre com a boca.  
Me traduza com o suor.  
E quando eu me desfizer em estrofes,  
não me recolha –  
me espalhe.

Porque meu poema não quer ser lido.  
Ele quer ser sentido.  
Até o fim.  
E depois do fim.  
Sempre.




  Cléia Fialho

quarta-feira, 28 de junho de 2023

ENTRE O GEMIDO E A CONSTELAÇÃO




Teu olhar não invade – rasga-me as vestes  
antes que os dedos toquem o meu ombro.  
Pétalas de neon deslizam moles  
onde a minha nuca é um vulcão sombrio.  
Tuas mãos sobem como videiras loucas  
e eu me abro em espiral, 
úmida e nua, cúmplice, assiste  
ao nosso ritual de luas que se estua.  

Teu corpo é a tinta que me escreve inteira  
— cada veia, um rio que se entrega ao teu leito,  
cada osso, uma harpa que vibra quando tocas  
o centro onde o meu nome arde e se desfaz.  
Bailamos sobre o fio de um abismo doce:  
tuas ondas em mim, minhas marés em ti,  
e a cama vira céu, o lençol, um mito  
onde dois astros caem para renascer.  

Ah, mas a alquimia não está nos gestos –  
está no intervalo entre o teu sopro e o meu,  
no instante em que a tua língua traça runas  
no mapa molhado do meu ventre-cru.  
Versos se espalham como sêmen lírico,  
rimas que latejam na curva do quadril,  
e todos os sentidos se confundem:  
cheiro-te a sal, toco-te a anil.  

Somos amantes em concupiscência pura,  
mas não há posse aqui, nem dominação:  
é entrega que se dobra, se desdobra,  
cada espasmo, uma estação.  
Os ais não são de dor – são de memória,  
de um corpo que se lembra antes de ser,  
e no instante exato em que me despedaço,  
gesto um poema que nunca vai morrer.  

Porque o erótico não é o que se mostra –  
é o que se esconde no vazio entre dois dentes,  
no suor que escorre e desenha deltas,  
no nome que eu grito e tu finges ausente.  
E quando a noite cai sobre nossos ombros,  
e as estrelas se apagam por pudor,  
eu sou ainda a fêmea que te chama  
num grito que é verso, oração, flor.




  Cléia Fialho